Trecho da peça "Todas": primeiro monólogo do imperador
Imperador, pensando: Ver cada uma. Todas! O ideal seria um esforço conjunto que associasse investigações em todo o mundo, em nome de uma grandiosa arguição que se pudesse chamar de exata, não só por atingir a totalidade das mulheres como pela diminuição da subjetividade de um só ponto de vista. Isso não tem cabimento, eu sei, mas será que não tenho o direito de examinar, no perímetro da minha terra, dentro de meu próprio país, nem mesmo aquelas que estão sob meus cuidados? Para então descobrir, despindo-se de estereótipos e maneirismos, a fórmula elementar da mulher em si, a eterna, a mesma, seja ela uma, seja ela uma série. Quem é, o que está contido lá dentro do limiar do seu corpo? Por que a beleza se divide entre todas, que uma expressa apenas um fragmento? Onde repousa a satisfação? Por que ao homem não basta uma, nem cem, nem mil das mais belas? É chegada a hora de alguém analisá-las como um todo, juntas, como uma coisa só; desmistificar a mulher, acabar com esse papo tacanho de mistério feminino. Não há mistério algum e sim desconhecimento. Esse conteúdo que chamamos mulher é analisado com paixão, e eu pergunto: pra que serve a ciência? Pra estudar passarinhos? Por que todos os fenômenos naturais são avaliados de forma racional, menos ela, justamente a responsável por tantos desvios, desvarios e desarmonias da vida humana? Alguém precisa juntar as peças e montar de vez esse quebra-cabeça, e esse alguém sou eu. Quero colhê-las, abraçá-las, selecioná-las em tipos, estudar suas variações – finitas, espero – até codificar uma essência comum, se ali houver (mas há de haver), para um dia enfim devolver a meu povo (ao mundo, que certamente acompanhará de perto minha experiência) a conclusão, a resposta a mais antiga das questões, razão de ser do tormento maior do homem em particular, mas também da própria mulher, de saber afinal o que são, o que querem, ou melhor, como querem!
Muitas já declararam seu amor por mim e eu mesmo, a meu modo, amei algumas. Mas por que uma? ou ainda, será por instinto ou tradição que escolhemos uma em meio a tantas? Oh Deus (se soubessem o quanto me custa), não sei nem formular a questão! Como dar início a uma pesquisa se não tenho claro nem a pergunta? Uma rosa é uma rosa – essa palavra compreende uma pequena variação reconhecível da espécie; um rio é um rio – óbvio em seu sentido, claro em suas metáforas. A natureza, a arte, as leis sociais, as tecnologias – tudo parece estar devidamente nomeado e organizado, dentro do movimento contínuo de transformação e desenvolvimento. O próprio sentido da vida (mesmo metafísico) não causa tamanha turbulência social, não afeta nem oprime tanto as pessoas – quem sabe pela evidência do inatingível, quem sabe simplesmente por ser uma abstração – do que a presença perturbadora de uma mera mulher. Ela está aqui, à nossa frente, é concreta demais, fala como o homem, toma água em copo de vidro, faz compras na mercearia, sua, espirra, caga – mas ninguém a entende. E por que ela não se explica? Porque – e é assim que resumem a questão – não é de sua natureza! Então, quem há de esclarecer? Aquele a quem interessa a solução, aquele que padece com as conseqüências: o homem. Para este não há sossego, e não por causa de si – não há nada mais evidente para o homem que seu próprio ser –, mas por tentar compreender e possuir a mulher. Qual seria o motivo para um pedaço de carne mole alterá-lo tanto? Há quem diga que esse abalo advém de resquícios de comportamentos instintivos de origem animal, portanto de natureza irracional e incontrolável. Como pode? Após milhares de anos, atingido tal avanço em todas as áreas do conhecimento, seríamos vítimas ainda, a ponto de adoecermos, enlouquecermos, assassinarmos, de um impulso animal? Não. Aprendemos a dominar a linguagem, e não é possível que não consigamos traduzir a mulher em palavras.
No decurso da história, civilizações as mais diversas concederam ao homem o direito de tomar conta de algumas, amá-las como bem entendesse, chegando muitas vezes até à prática das maiores arbitrariedades – seja como for, a carência primitiva permaneceu sempre inalterada. Para cada mulher que possuímos, milhares são deixadas de lado, justamente aquelas que desfilam pelas ruas, escolas, escritórios, quando não invadem nossas próprias casas, exibindo-se invariavelmente no limiar máximo de sedução – que a característica básica da fêmea é nos atiçar a todo momento, a troco de nada. Elas querem ser medidas, reparadas, desejadas, não lhes interessando as conseqüências de seus atos irresponsáveis. Não sei como não há lei contra isso; não se atenta para a maldade intrínseca dessa aparente inocência – o sadismo é aceito como inevitável. Provocam-nos com seus rebolados, com o cruzar de pernas, com o sorriso malicioso, cobrem-se com roupas e adereços que, por ocultarem exatamente aquilo que se deseja, realçam-no ainda mais. É claro que tiram proveito das convenções dos costumes, do que, de resto, somos todos cúmplices, nós, maridos autoritários que criamos as regras para tentar assegurar pelo menos uma: a nossa. Mas creio que a própria necessidade desesperada dessa garantia advém do pouco que se possui; se o homem tivesse livre acesso a todas, não haveria de lutar atarantado por uma. Essa barreira limitadora é determinante para a mesquinhez possessiva – não há como viver em paz ao mesmo tempo consigo e com os outros se o material é escasso. Mas quem são os responsáveis por esse estado de coisas? Os homens, as mulheres?
Não se trata de achar culpados, tudo isso começou junto às primeiras tentativas de convívio social – o que não significa que não se possa adotar outro rumo. (Quantos equívocos ancestrais da conduta humana vêm sendo esclarecidos e transformados ao longo do tempo?) Por isso, minha obra não é particular, egoísta, nem acredito em abuso do poder – apesar de ter consciência de que somente alguém com as minhas condições lograria os recursos materiais e humanos necessários para tal empreitada. Não a faço por mim, quero apenas ajudar o homem a livrar-se da angústia desse desejo obscuro. Quero encontrar o engano primordial, se possível detectar o momento do desvio, que deve ter ocorrido num dia qualquer, lá quando o primata resolveu abandonar sua vida solitária e organizar uma sociedade. Deve ter ocorrido então um lapso. O caminho bifurcou-se, e se tomou a vereda errada; havia uma esquina com uma placa apontando às direções uma e todas – mas o homem não sabia ler. Não, posso estar enganado; quem sabe o caminho esteja certo, e eu venha a concluir que as mulheres não passem de uma dúzia de tipos – e, sendo assim, pra que variar? –, ou que haja um ponto de saturação (qual a quantidade?), em que a própria diversidade torne-se repetitiva. Então meu trabalho apenas restituiria à humanidade, depois de percorrida a volta completa, a premissa popular de que uma mulher contém em si todas as outras, e que por isso – mas então, comprovadamente – nos é dado amar somente uma. Serveria pois como um atestado de que a vida, seja como for, está certa. Mas por que haveríamos de aceitar tal axioma (aliás, sem lógica alguma)? Por pura ignorância ou por limitação logística para a experimentação? Somente pelo pudor de submetê-las, todas, a uma análise integral? Eu quero demonstrar que o tabu feminino pode ser desmascarado, revelado e substituído por um princípio ativo e, justamente por isso, estabilizador, que traga paz para todos nós, homens e mulheres, assim como um dia a lei da gravidade trouxe ordem para o aparente absurdo do mundo das coisas.
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