Nessa página de vidro pretendo simplesmente fazer caber a minha vida. Talvez falte, talvez sobre espaço, conforme o tamanho da vida em questão. É claro, estou chamando de vida o restrito departamento do trabalho. Mas a palavra cabe, se o trabalho tiver sido realizado com profundo amor. Chamamos um filho, algumas vezes, de minha vida. Talvez a produção artística tenha uma dimensão semelhante, por pobre que seja; a obra nasce de um estreito relacionamento com um Outro que reside dentro de nós, e é grande o esforço de gestação. Se o fruto não servir pra nada, a culpa não é dele, nem do autor, nem do Outro; foi com amor e esforço também que a natureza criou alguns homens, vermes e cascalhos, que deixariam perplexo quem buscasse neles um sentido de existência.

Dentre as qualidades dessa página de vidro, destaco sua transparência. A luz aqui pode entrar e sair, ser vista de frente – por mim – ou por trás – onde estão vocês. No salão informal desse espelho vazado, todos convivem de livre e espontânea vontade. Um trabalho apreciado com tal intimidade e por tantos lados se aproxima de sua razão de ser.

A página inicial não trará novidades da semana, como costuma acontecer nos verdadeiros blogs, mas conteúdos que semanalmente espero dispor em destaque, retirados dos livros e desenhos organizados no interior do blog. Poucos gostam de ler tantos contos ou poemas ou peças, ou ver tantas imagens; nessa página primeira, a maioria dos visitantes poderá ter um panorama do meu trabalho – e logo desistir, se for o caso. Portanto, somente nas páginas internas se encontrará a totalidade daquilo que quero expor.

De resto, o blog se explica por si mesmo. Vocês encontrarão nesses primeiros meses setores incompletos, por conta da cansativa revisão de todo o material, da produção das fotos de esculturas e baixo-relevos e pelas próprias dificuldades técnicas dessa mídia, tão comum às pessoas, mas estranha a mim.


10.7.11

O homem perfeito



Doutor em matemática e relações internacionais, trabalhou como embaixador na antiga União Soviética, França e Canadá, época em que aproveitou para desenvolver sua rara habilidade com as línguas, das quais domina o japonês, mandarim e árabe; de família abastada, multiplicou muitas vezes seu capital com transações em bolsas de valores de todo o mundo; famoso por suas idéias e erudição, foi pioneiro nas questões de ecologia e biodiversidade, dando consultorias a diversos governos, em especial à ONU; criou um banco de créditos para pequenos negócios no Brasil, que se tornou modelo para projetos afins no terceiro mundo, tendo por isso seu nome lembrado para o Prêmio Nobel de Economia; participou recentemente, com grande contribuição, junto à equipe de Chomsky, no projeto de universalização da língua inglesa; coleciona títulos de cidadão honorário em capitais de cinco nações; criou o programa Zephyrum, fundamental na área de engenharia estrutural, vendido em 2006 a Microsoft; etc.

Como se não bastasse, algumas particularidades desse homem: alto, saudável e bonito, até hoje manda bem, mesmo com a proximidade do sexagésimo aniversário; casado com uma bela atriz australiana, excelente companheira, mãe de dois de seus três filhos – homens brilhantes, que pouco devem ao pai; moderno e pouco afeito a formalismos, aberto a relações extraconjugais para o casal, que pratica quando quer, sem culpa; tem a sorte de conviver ainda com os pais, apesar da idade, que reúnem em torno de si a grande família de quatro descendentes (nosso homem é o segundo); disciplinado, corre três vezes por semana exatos 12 km e nada uma hora por dia; foi um exímio jogador de futebol, e joga vez ou outra a sua pelada; nenhuma doença crônica, nunca esteve internado num hospital, não quebrou sequer um dedo, raramente toma algum remédio e não sabe o que é depressão; ouve mais do que fala, é bastante consciencioso, amável e desprendido; suas casas são simples, anda de táxi, come na padaria (quando pode), usa roupas incompatíveis com seu status – um pequeno jato foi adquirido apenas para otimizar os deslocamentos; etc.

Últimos detalhes para entendermos esse homem perfeito: quando jovem consertava qualquer motor ou aparelho doméstico e ainda hoje tem na marcenaria seu maior passatempo; gosta de escrever cartas à mão aos amigos íntimos; memoriza tudo o que lê, capaz de devorar trezentas páginas de um romance em duas horas; cozinha como poucos e gosta de lavar a louça; estando disponível, acompanha sua mulher ao cabeleireiro e espera-a pacientemente sentado a seu lado; a maior alegria de sua vida é brincar com seu neto de dois anos; quando joga cartas com as noras, sempre rouba; faz coleção de borboletas, cria passarinhos em gaiolas, tartarugas no quintal, inúmeros cachorros e recentemente comprou um papagaio; deixou a maconha nos últimos tempos, mas exagera na bebida, do que sempre se arrepende; certa vez, pagou o advogado para o assaltante de sua mulher; se necessário, participa de boa vontade dos rituais católicos da família; teve uma experiência homossexual com um tailandês, divertiu-se, e fez questão de relatá-la pormenorizadamente a seus filhos; recusou inúmeras vezes encontros sociais com políticos de prestígio, como no ano passado, com o ex-presidente François Mitterrand; etc.

Pois agora podemos contar o episódio que descarrilou a vida desse grande homem que chamamos de perfeito. Mordaz este perfeito, não?

– Não me chame de homem, me dê um nome.
– Que nome?
– Qualquer um
– Henrique?
– Qualquer um.

Talvez o gatilho do caso tenha sido a mera observação de um amigo que o acompanhava num fim de semana no sítio. Depois de ouvir uma interpretação bastante razoável feita pelo anfitrião do Estudo nº3 de Chopin (para quem não tinha tempo de se exercitar ao piano, era admirável a sua habilidade), esse amigo comentou em tom jocoso que a arte era o único território no qual Henrique nunca se atrevera a entrar. Essas palavras despretensiosas tocaram-no, havia tempo que refletia obsessivamente sobre a sua inibição atávica com a criação artística. Sorrindo, concordou com um aceno e logo arranjou um meio de perambular sozinho na velha companhia das estradas de terra da redondeza. Amava a arte acima de tudo, conhecia a fundo literatura, tocava piano, frequentava teatros e exposições, mas era incapaz de esboçar um desenho, compor uma canção singela ou escrever uma quadrinha graciosa. Doía na alma sua incapacidade de conceber um mínimo projeto criativo. Não se tratava de vaidade, do patamar que alcançara na vida não precisava ser nem provar nada mais. O que o abatia era uma falta, uma falha de formação, pois sempre professou o caráter holístico do conhecimento, e sem a experiência da criação sentia-se um mero intelectual elucubrativo. Talvez por isso admirasse especialmente seu caçula, diretor de cinema respeitado por suas experimentações. Sonhava com o homem total (não o perfeito, com o qual ironicamente o caracterizamos), capaz de dominar aspectos essenciais da ciência, filosofia, matemática e integrá-los com o lado obscuro e inconsciente da mente, aquilo que considerava a matéria viva da Arte. Isso sempre lhe faltou, ele sabia, mas tornou-se premente com a maturidade. Não tinha pretensão alguma de vir a ser um artista, desejava simplesmente penetrar no mundo verdadeiro da arte, perscrutá-lo intuitivamente, com o objetivo último de entrar em contato consigo mesmo. Que chamado é esse que os grandes artistas relatam? E aquela história que ele mesmo repetia em palestras sobre o artista transcender o eu para alcançar o universal? – tão fácil falar, difícil entender... Até mesmo essa reflexão revista e refeita ali, na estrada de terra, pela enésima vez, exauria-o demais, tornando-se em si um anteparo defensivo contra a verdadeira ação: enfrentar!


Estou aposentado. Surpreendeu a mulher, a família, as empresas e muitas instituições do país e do mundo. Não havia mais o que conquistar pessoalmente seguindo simplesmente o destino vitorioso de sua vida. Deu o salto que evitava havia tantos anos: iria jogar suas cartas na poesia que, dentre as linguagens que se lhe avizinhavam – música, artes plásticas e literatura –, era aquela com a qual gozava de maior intimidade, por sua intimidade e amor às línguas. Um livrinho de sessenta páginas com quarenta poemas publicado por uma editora universitária seria agora a sua realização maior. E não tinha pressa de alcançá-lo – deu a si um prazo de dois anos. Ficou excitado.

Mudou-se definitivamente para o sítio. Dispensou os empregados, exceto o caseiro. Sua esposa o acompanhou a contragosto, mas ao cabo do primeiro mês retornou à capital, sob pretexto de ficar perto do neto. Internet e telefone foram disciplinados. A bela sala de jantar, com sua exuberante vista para os movimentos fotográficos da serra, transformou-se agora num escritório, em cuja mesa de jatobá foram colocados a primeira folha de papel e um lápis bem apontado; escreveria à mão. Porém, e o sossego? Era inacreditável o número de acontecimentos estúpidos que o desviavam: a mulher enumerando problemas (no primeiro mês), o caseiro trazendo questões (até se acostumar com a nova ordem), a morte de um cachorro, a morte de um amigo querido e de uma ex-cunhada (ele exaltava: parem de morrer!), raio na rede elétrica, picada de abelha, visitas de um oficial de justiça e de enviados internacionais inconformados com a situação, presença demorada de filhos preocupados, burocracia na venda do jato, a mulher chorosa e câncer no pai (ambos do segundo mês em diante), caixa d’água vertendo água em plena madrugada e tantos et cetera que se interpunham continuamente naquela singela relação de um pretendente a poeta e um mísero papel. Nesse conturbado começo, o trabalho resumiu-se a observar como o branco do sulfite cintilava.

De ingênuo não tinha nada, sabia que essas dificuldades apenas encobriam o novo obstáculo que precisava ser vencido: encontrar a porta de acesso ao primeiro poema. Expressar o quê? – soubesse isso, o resto viria naturalmente. Tempo de longas caminhadas; descia e subia trilhas que se bifurcavam na serra. Refletia demasiado sobre sua vida, sobretudo a infância. A iminência de perder os pais o sensibilizava, mas achava canastrice começar o empreendimento por tal sentimento. Às vezes, voltava correndo para o sítio com uma sensação na ponta da língua, porém, logo ao chegar, era assaltado por qualquer daqueles problemas urgentes e mais tarde, quando conseguia se acalmar, não havia sensação alguma, nem concentração, nem uma só palavra – o que o deixava exasperado. Mas tudo estava no início, dizia a si, a fase pedia paciência.

Início não, os dias agora pesavam. Esquecera de ginásticas, músicas, jornais, TVs – bobagens para quem tem tempo. Eram mundos de passarinhos, abelhas fazendo colmeéia, azuis violetas das hortênsias, voos de urubus, pó de estradas, musgos, orvalhos, neblinas... e também o tempo escapando em inúmeras leituras inspiratórias. Foi quando somatizou uma gastrite que serviria apenas para afastá-lo ainda mais da tarefa; médicos, remédios e dietas tomaram conta de sua cabeça. O papel branco era a evidente razão. Às vezes o preenchia com frases de livre associação buscando abrir o inconsciente ou meramente copiava um poema famoso, alterando duas ou três palavras, na tentativa de captar um ritmo – mas borrar o papel assim não o tornava menos branco. Desses exercícios, guardou um verso como um ponto de partida para o dia seguinte:

O seio é um meio que é um todo.

Logo cedo, voltou à mesa. É claro que tinha o verso na cabeça porém, ao vê-lo escrito, o impacto da frustração ante a mediocridade obrigou-o a aceitar um interlúdio, quando então voltou pra cidade para descansar junto à família. Perguntaram sobre o trabalho, respondeu que estava no início. A mulher, irascível, rebateu com algo como início, depois de quatro meses! Algum filho contemporizou com quatro não, mãe, nem três meses e meio. Sentia-se no limiar de uma crise nervosa – era o que desconfiava, na verdade estava já em plena crise. Não se encontrava em parte alguma, retraía-se diante de parentes e amigos, irritava-se facilmente com qualquer ruído. E o ambiente não favorecia, sua esposa o evitava, o casamento se segurava no mesmo fio que ainda mantinha vivo seu pai, afinal rompido na semana seguinte. Perdido o pai, a esposa partiu. Pouco antes, no enterro, a presença da imprensa e de inúmeros oportunistas perturbou-o de vez, chegando a avançar sobre um irmão que teria insinuado relação entre as decadências dos pais e a sua alienação – o irmão, na verdade, reclamara apenas de sua prolongada ausência nesse grave período. Seus filhos trouxeram um psiquiatra. Ele se deixou levar melancólico, sabia que todos o consideravam doente não apenas pelo choque das perdas, mas desde a decisão de largar a vida pela poesia. Dias se gastaram frouxos e alongados. Queria voltar imediatamente para o sítio, mas o antidepressivo lhe fazia mal, insistiam para que tivesse paciência. Nesse período, sonhava com trechos de poemas, com versos sonoramente encadeados que pareciam falar de coisas muito íntimas, e ele chegava a repetir alguns em voz alta, ao despertar – mas logo esquecia. Sobrou apenas essa reminiscência que Henrique interpretou como uma mera queixa contra a ex-esposa, e por isso deletou:

Eu contei com ti comigo...

Despediu-se da mãe moribunda certo de que não a veria outra vez, pois que jamais retornaria à cidade antes de realizar ao menos uma dúzia de poemas. Esse tipo de determinação era característico de Henrique. Porém, precisava ainda recuperar a força. Qualquer esforço o atordoava. Os filhos não permitiriam, sua saída foi uma fuga. Recobrou o ânimo ao avistar sua serra nublada da qual se tornara amante. O ar puro lhe dizia alguma coisa; o carinho do caseiro lhe dizia alguma coisa; seus cachorros, as galinhas, tudo estava vivo dizendo-lhe alguma coisa. Tinha pressa em sentar-se à mesa, entrou na cozinha e pediu um café para o empregado. O que aconteceu? Não devia ter se desviado, era pra ir direto, achou, mas não, o café lhe fez mal, pois agora, dentro, o branco papel girava, um tornado, uma cascata, tempestade de areia, estava cego, não, um incêndio florestal, não, um anão que lhe propunha um labirinto sem cercas, uma criança que tirava a rolha do mar, uma multidão que corria nua num corredor, de repente um silêncio absoluto, o papel voltou para o papel, então um formigueiro, o papel cheio de formigas, papel vivo, faiscando preto-branco-preto-branco, era uma escrita, uma língua que desconhecia...

Passava o dia de cama cuidado pelo caseiro que fora terminantemente proibido de comunicar qualquer parente sobre seu estado. Henrique era determinado, como já foi dito; de madrugada, ia visitar o papel, o que significava assistir a um desfile de incidências sobrenaturais. Fazia questão de enfrentar e se lançar no abismo; quantos artistas verdadeiros não teriam feito o mesmo trajeto? Ao amanhecer, o caseiro levava seu corpo frio de volta para a cama. Devaneava durante o dia declamando palavras que não se articulavam, mas a velha fé resistia dentro de si, bastaria encadear dois versos para que se abrisse o portal da poesia. Porém, o papel precisava parar com seus rebuliços e as formigas darem um tempo com as cintilações. Às vezes isso acontecia, tudo ficava repentinamente imóvel. Então, tremendo, sorria ou chorava na esperança de que o dia tivesse chegado. Mas a quietude não passava de malfadada ironia, pois bastava ele grafar a primeira letra para o redemoinho voltar e, na subsequente, uma areia movediça engolir sua mão, como se uma mísera letra fosse a chave que desencadeasse fenômenos. O caseiro encontrava de manhã anotações confusas para o seu pouco entendimento:

a l o ucaur àest osl t a.

Seus filhos ainda o acharam debruçado sobre a mesa. A necropsia revelou um infarto. No papel manchado pela baba do morto encontraram dois versos escritos numa letra tremida e descomunal que não reconheciam:

ai que medo
Arquimedes

O que, evidentemente, apenas demonstrou para eles o ponto a que o pai chegara. Mas esse ponto, pela primeira vez, era formado por dois versos. Será que o homem havia se desapontado irremediavelmente?


Guache (22x15 cm)

2 comentários:

André hp disse...

Belo texto, mandarei para uma amiga.

bia reinach disse...

Adoro demais esta pintura. Venho aqui, no blog, só para visitá-la, vê-la.