Nessa página de vidro pretendo simplesmente fazer caber a minha vida. Talvez falte, talvez sobre espaço, conforme o tamanho da vida em questão. É claro, estou chamando de vida o restrito departamento do trabalho. Mas a palavra cabe, se o trabalho tiver sido realizado com profundo amor. Chamamos um filho, algumas vezes, de minha vida. Talvez a produção artística tenha uma dimensão semelhante, por pobre que seja; a obra nasce de um estreito relacionamento com um Outro que reside dentro de nós, e é grande o esforço de gestação. Se o fruto não servir pra nada, a culpa não é dele, nem do autor, nem do Outro; foi com amor e esforço também que a natureza criou alguns homens, vermes e cascalhos, que deixariam perplexo quem buscasse neles um sentido de existência.
Dentre as qualidades dessa página de vidro, destaco sua transparência. A luz aqui pode entrar e sair, ser vista de frente – por mim – ou por trás – onde estão vocês. No salão informal desse espelho vazado, todos convivem de livre e espontânea vontade. Um trabalho apreciado com tal intimidade e por tantos lados se aproxima de sua razão de ser.
De resto, o blog se explica por si mesmo. Vocês encontrarão nesses primeiros meses setores incompletos, por conta da cansativa revisão de todo o material, da produção das fotos de esculturas e baixo-relevos e pelas próprias dificuldades técnicas dessa mídia, tão comum às pessoas, mas estranha a mim.
29.8.11
Um milagre vegetal
Que nada deve à ressurreição;
Uma flor, flor mesmo
Símbolo do efêmero
E da beleza fugaz
Essa flor não morre, aliás
Morre, mas renasce sempre
Em qualquer época do ano
Num ciclo atemporal.
Estava perdida no quintal
Com duas folhas velhas
Num vaso de lata
Quando a levei pra sala.
Desde então floresce
E não morre, aliás
Morre e já renasce
Mais branca, mais lilás
Uma flor paranormal.
Apesar da metáfora banal
Não posso deixar de relacionar
Minha flor com minha dor
Pois não me teria sido dada
À toa; eu também não morro
Aliás, morro, morro sempre
Mas renasço, e ao renascer
Alquebrado, olho minha flor
Misteriosamente fatal.

2 comentários:
Maravilhoso poema, Zé, maravilhoso!
esta sendo uma delicia acompanhar o blog ; ler e ver de quando em quando sempre um poema lindo, uma foto, um conto ,uma gravura. Sao lindos !
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