Enésima Parábola Taoista
– Muito bem. E você, Ta-ti?
– Eu vejo a montanha.
– Certo. E você Lu-ci-la?
– Não vejo nada demais; só me interessa aquilo que está por trás da montanha.
– E você, Chi-co?
– Não existe nada detrás da montanha. Uma montanha é uma montanha. Eu sinto sua força.
– Você, Leo-jai-me...
– Meus colegas estão muito zen, mestre. Eu vejo um corpo de mulher, uma mulher verde, e posso imaginar seu tufo secreto naquela fenda cheia de arbustos, de onde brotam duas pernas que se deitam sobre a planície. Diria muito mais, mas passo a palavra.
– Muito bem. E você, Bi-bi-a?
– Mestre, eu vejo um vulcão extinto que se resguarda pacientemente para o dia de sua glória, que haverá de chegar.
– Sua vez, So-lan-ge.
– A montanha em questão não existe. A coisa em si que existe não cabe em nome algum e a palavra montanha, que também existe, tem por coisa uma generalidade.
– Jo-a-quim, diga alguma coisa...
– Também concordo que ela não exista, mas não por razões linguísticas e sim metafísicas. O que existe, em breve resumo, é meu ser junto a vocês debaixo dessa figueira refletindo sobre uma montanha que se apoia na terra debaixo do céu onde duas gaivotas voam para lados opostos enquanto fumega a chaminé da casa do ancião Bei-ja-mim. Não existe nenhuma montanha nem nada em si.
– Muito bem. E então, Ca-du?
– Mestre, vejo somente sua beleza única e inaudita, que os pintores tentam timidamente captar, aquilo que eu, mesmo que fosse o melhor deles, não ousaria.
– Ok. Por último você, Lau-ra.
– Minha amiga Lu-ci disse que se interessava por aquilo que está atrás da montanha, querendo dizer, se estou certa, a busca de um sentido por detrás das coisas, no caso, de uma montanha. Para mim, mestre, que nunca saí dessa aldeia, interesso-me literalmente pelo que está atrás desse colosso que me oprime a visão, por saber simplesmente que existe um mundo grande e receptivo que ela me esconde.
Então o mestre abriu a discussão para algumas crianças que assistiam à aula:
– E vocês, meninos, desejam falar alguma coisa?
– Eu vejo a caixa d’água...
– Não dá pra ver daqui, mas eu gosto de ir lá em cima com todo o mundo tomar banho na nascente do Ri-a-cho...
– Eu não vejo de longe, mestre, minha mãe vai na cidade mandar fazer meu óculos...
Todos riram da criançada e o mestre concluiu:
– Muito bem, vocês estão de parabéns, por hoje é só, meus amigos.
– Mestre, com sua permissão, acho que a gente gostaria de saber aquilo que o senhor vê nessa montanha.
– Já parabenizei a todos. Eu não vejo nada além do que vocês viram.

Um comentário:
Eu vejo A montanha.
Postar um comentário