Dessa vez a distância foi longa, uma década e tanto, porém não perderam o contato por completo. Ela, inclusive, chegou a visitá-lo na maternidade, por ocasião do nascimento do seu segundo filho. Encontraram-se em algumas festas e, casualmente, num congresso, junta eleitoral, livraria, espetáculo musical, quando então trocavam palavras contidas, mas afetivas. Seus cônjuges não eram indiferentes à evidente ligação de ambos, e trabalhavam para mantê-los afastados. Certa feita, chegou aos ouvidos dela a informação, logo confirmada por conhecidos, que o casamento dele era um tormento. Aquilo serviu como gatilho para a agora cinquentona passar a criar fantasias de libertação, o que contribuía para ruir mais e mais o seu próprio casamento. Porque – é preciso observar – Ela lutava para não se tornar uma velha careta, dizia a si mesma que havia muita energia em suas veias, e que ainda a usaria, se Deus quisesse. Devaneando assim, conseguiu o celular do seu nunca amado amante e ligou furtivamente, sem medir consequência.
– Pois era com você mesmo que eu queria falar. Caiu do céu. Só poderia ser com você.
– Ele já saiu de casa. Foi duro, mas foi o melhor.
– É duro...
– Você encontrou meu filho...
– Sim, na saída do cinema...
O papo seguia sem fluir, ela sacando, por vasta experiência, que a porta se fechara mais uma vez. Recuou. De fato, Ele vivia a verdadeira lua-minguante-de-mel com uma jovem que lhe resgatara a auto-estima e a felicidade perdidas. Ela o soube por terceiros e caiu na fossa. E da fossa para o poço, com o advento de delicadas cirurgias ginecológicas.
– Bobão...
Todos os dias a visitava no hospital. Queria paz, queria segurança, e Ela significava essa bonança que jamais tivera na vida. Agora o caminho estava desobstruído. A seus olhos, Ela se tornara uma senhora bonita, sensual; as vezes em que deixava escapar das abas do avental um fragmento de coxa era o bastante para Ele imaginar o resto.
– Doutora, e então?
No hospital, tratavam-no como se fosse o marido. Trazia flores, conforto, alegria. Brincava com a paciente:
– Parece que meu destino é acompanhar mulheres no hospital... A doutora me disse que tudo está indo muito bem, mas a alta é imprevisível.
Ela pedia para as amigas enfermeiras que a mantivessem o mais ajeitada possível, sentia-se envergonhada pela languidez da convalescença. O ciclo estava no fim, a maré cheia de felicidade, por estranhas vias haviam enfim se unido. Aguardava diariamente, excitada como uma adolescente, o beijinho na testa da chegada e da saída. Mas a sombra voltou a pairar, com a ausência do amado por três dias.
– Estive ocupado, mudando de casa. A doutora está aí?
– Segunda é seu dia de folga.
– Ah é... Sabe, talvez não possa ir amanhã...
Ele estava mudado. O que mais conhecia naquele homem era a sua dissimulação. Nisto era íntima. A tristeza voltou, pois seu novo nunca amor não apareceu no dia seguinte, nem nos subsequentes. Telefonou duas vezes, uma das quais para informar que a doutora lhe daria alta no domingo e que Ele ali estaria, sem falta, para levá-la para a casa. Então, não a abandonara! Seria Ele um esquisitão, seria esse o seu jeito de amar... aquele tipo de homem que precisa mostrar que é livre...? Bem, a verdadeira natureza dele era justamente o que Ela desconhecia.
– Hora de ir pra casa...
E a doutora:
– Por quê? Vocês dois...? – apontando Ela e Ele. Ele balbuciou à doutora:
– Não, nada...
A nossa mulher cambaleou dois passos, virou-se, pegou um taxi no ponto e sumiu.
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2 comentários:
Muito boa essa história! Triste.
o que mais conhecia naquele homem era sua dissimulação.... UAU!
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