Nessa página de vidro pretendo simplesmente fazer caber a minha vida. Talvez falte, talvez sobre espaço, conforme o tamanho da vida em questão. É claro, estou chamando de vida o restrito departamento do trabalho. Mas a palavra cabe, se o trabalho tiver sido realizado com profundo amor. Chamamos um filho, algumas vezes, de minha vida. Talvez a produção artística tenha uma dimensão semelhante, por pobre que seja; a obra nasce de um estreito relacionamento com um Outro que reside dentro de nós, e é grande o esforço de gestação. Se o fruto não servir pra nada, a culpa não é dele, nem do autor, nem do Outro; foi com amor e esforço também que a natureza criou alguns homens, vermes e cascalhos, que deixariam perplexo quem buscasse neles um sentido de existência.

Dentre as qualidades dessa página de vidro, destaco sua transparência. A luz aqui pode entrar e sair, ser vista de frente – por mim – ou por trás – onde estão vocês. No salão informal desse espelho vazado, todos convivem de livre e espontânea vontade. Um trabalho apreciado com tal intimidade e por tantos lados se aproxima de sua razão de ser.

A página inicial não trará novidades da semana, como costuma acontecer nos verdadeiros blogs, mas conteúdos que semanalmente espero dispor em destaque, retirados dos livros e desenhos organizados no interior do blog. Poucos gostam de ler tantos contos ou poemas ou peças, ou ver tantas imagens; nessa página primeira, a maioria dos visitantes poderá ter um panorama do meu trabalho – e logo desistir, se for o caso. Portanto, somente nas páginas internas se encontrará a totalidade daquilo que quero expor.

De resto, o blog se explica por si mesmo. Vocês encontrarão nesses primeiros meses setores incompletos, por conta da cansativa revisão de todo o material, da produção das fotos de esculturas e baixo-relevos e pelas próprias dificuldades técnicas dessa mídia, tão comum às pessoas, mas estranha a mim.


29.12.11

Ele e Ela



A juventude é romântica, Ele viveu um ano inteiro dedicado à sua paixão. Ela, ambígua, dava bola, sorria, lançava olhares, mas se esquivava de qualquer aproximação. Enfim, Ele marcou um encontro formal, precisava dar um desenlace a sua desconfortável condição de iludido. Sentados num banco de shopping, Ele, inocente, declarou-se e Ela lhe respondeu, com delicadeza:
– Gosto muito de você, de verdade, mas como amiga. Estou apaixonada por fulano...
E, de fato, logo se casou, ainda jovem, com o tal fulano, Ele partiu pra outra, alguns anos depois também se casou, e assim os primeiros anos passavam com encontros esporádicos e casuais, quando então se comportavam com aquela etiqueta que costuma disfarçar antigas atrações. Mas isso eles nem percebiam, só tocavam a vida pra frente.

Ela se separara havia tempo, Ele acabara de fazê-lo, estava alegre, solto, à cata de aventuras, e foi nesse clima que se depararam numa festa de amigos, noite inteira passando a vida a limpo, reconstituindo (no mínimo) a velha amizade que os casamentos desfizeram. Mas pairava ali um desequilíbrio: Ele buscava diversão e sexo, e os sinais de flertes dela eram esperançosos, sentia nele o homem que poderia ter tido no lugar de seu ex-enrosco que somente lhe causara infelicidade. Ele não, ria e tecia comentários com aquele ar de maturidade conquistado com as experiências dramáticas de seu ex-matrimônio. Ambos então com seus trinta e poucos anos, portanto com grande futuro pela frente.
Jantar aqui, chope ali – a amizade plenamente restaurada –, necessário agora era dar conta da renovada atração que deixava a conversa e os gestos um tanto retraídos. Um dia, Ela recorreu a um ataque direto ao apartamento dele, levando consigo uma bela caneta tinteiro (que o outro colecionava) como objeto de sedução. Apareceu de surpresa, com tudo (higiene, roupa íntima, camisinha) em cima. Seu encabulado amigo convidou-a para entrar, arrumando a camisa dentro da bermuda. Ofereceu-lhe água e café, agradeceu muito o presente (Ela estava cismada), quando uma mocinha bonitinha saiu do quarto e cumprimentou-a sem graça. Mal-estar geral: não pegava bem virar as costas e sair, mas a mocinha também não tirava seu time de campo, e, para Ele, restava fazer o meio-de-campo. O constrangimento durou meia hora, o suficiente para uma nova separação.

– Aquele dia terrível eu te perdi outra vez, mas você sempre esteve em meus pensamentos. De verdade. Não sei por que as coisas são tão complicadas entre nós. Mas agora você não me escapa, jamais – foi o que Ele disse, bêbado, três anos depois, num reencontro fortuito, novamente na casa de um amigo em comum.
–É a nossa sina. Estou grávida de um menino e muito feliz com beltrano. Conhece? Ele está chegando...

Dessa vez a distância foi longa, uma década e tanto, porém não perderam o contato por completo. Ela, inclusive, chegou a visitá-lo na maternidade, por ocasião do nascimento do seu segundo filho. Encontraram-se em algumas festas e, casualmente, num congresso, junta eleitoral, livraria, espetáculo musical, quando então trocavam palavras contidas, mas afetivas. Seus cônjuges não eram indiferentes à evidente ligação de ambos, e trabalhavam para mantê-los afastados. Certa feita, chegou aos ouvidos dela a informação, logo confirmada por conhecidos, que o casamento dele era um tormento. Aquilo serviu como gatilho para a agora cinquentona passar a criar fantasias de libertação, o que contribuía para ruir mais e mais o seu próprio casamento. Porque – é preciso observar – Ela lutava para não se tornar uma velha careta, dizia a si mesma que havia muita energia em suas veias, e que ainda a usaria, se Deus quisesse. Devaneando assim, conseguiu o celular do seu nunca amado amante e ligou furtivamente, sem medir consequência.
– Estou ligando pra saber como você está...
– Pois era com você mesmo que eu queria falar. Caiu do céu. Só poderia ser com você.
– Também estou precisando...
Marcaram no café de uma livraria, onde não pudessem ser reconhecidos. Ele desandou a contar os podres de sua mulher, estava de saco cheio, mas havia os filhos, contudo, nada o impediria, havia decidido, iria separar-se novamente, somente não o fizera ainda por conta de uma inesperada doença da esposa que inclusive fazia uma consulta naquele momento etc. Ele falava tão bonito que o desejo dela era agarrá-lo, beijá-lo – como era possível nunca terem se beijado? Longas pausas com olhares e sorrisos tímidos. Então o destino trouxe a conta: o celular do homem, que tocava insistente, era a sua mulher, ansiosa por contar o diagnóstico: câncer terminal. Como podia, catso, naquela hora? – Ela pensou. Ele, em choque, se despediu.
Ela ligou no fim de semana pra saber das coisas, Ele contou, consternado, que uma estranha força havia unido, do fundo do coração, ele e a esposa moribunda. Restou a Ela esperar pela notícia do funeral, mas a tal doença terminal não terminava nunca, a ponto de esfriar toda a esperança e dissolver qualquer fantasia – e lá estava ela de volta a sua realidade de maridão e trabalho. Dois anos mais tarde, recebeu com desdém a notícia do falecimento da dita cuja. No enterro, abraçaram-se consternados, quando nem a verdadeira dor da perda o impediu de sentir pela primeira vez em seus braços o corpo daquela que poderia ter sido a mulher de sua vida. Não que o abraço tivesse sido longo, o bastante, porém, para que o viúvo preservasse na memória ao menos a fragrância real daquele ente imaginário.

Um perfume é deveras fugaz, mas nesse caso acendeu uma brasa abafada por décadas, que logo se transformou numa fogueira. O perfume, o toque das mãos nas costas, aqueles seios atazanavam a cabeça de um cara cansado de luta e de luto. Não tinha mais idade para hesitações: ligar já. Tentativas seguidas, e ninguém atendia. Tinha receio de procurá-la em seu apartamento e dar de cara com o marido, e vergonha, viúvo recente que era, de sondar seus movimentos com os amigos. Mas o destino, dessa vez, deu uma mãozinha, mesmo que a esquerda: topou com o primogênito da mulher, que lhe informou que os pais estavam em “lua-de-mel” na Europa. Sentiu (e disfarçou) um desânimo profundo, blasfemou a sua sorte e jurou nunca mais pensar nessa estúpida e histórica encrenca. Por outro lado, o filho comentou inocente com a mãe o encontro com o viúvo, semanas após o retorno de sua frustrada viagem. Ela imediatamente ligou:
– Tentamos reatar, mas Paris nenhum preenche nosso tédio. Não dá mais.
– Vocês se separaram?
– Ele já saiu de casa. Foi duro, mas foi o melhor.
– É duro...
– Você encontrou meu filho...
– Sim, na saída do cinema...
O papo seguia sem fluir, ela sacando, por vasta experiência, que a porta se fechara mais uma vez. Recuou. De fato, Ele vivia a verdadeira lua-minguante-de-mel com uma jovem que lhe resgatara a auto-estima e a felicidade perdidas. Ela o soube por terceiros e caiu na fossa. E da fossa para o poço, com o advento de delicadas cirurgias ginecológicas.

Por ironia, a gravidade de sua internação voltou a uni-los. Assim que se inteirou do caso, Ele passou a se dedicar a Ela de corpo e alma, portando-se como um grande companheiro. (Companheiro?) Os dois nem se preocupavam em manter as aparências, ignoravam até os filhos e Ela pediu diretamente para o ex-marido se afastar. Viviam um idílio.
– Acabou completamente. Foi dessas paixões de homem mais velho, carente...
– Bobão...
Todos os dias a visitava no hospital. Queria paz, queria segurança, e Ela significava essa bonança que jamais tivera na vida. Agora o caminho estava desobstruído. A seus olhos, Ela se tornara uma senhora bonita, sensual; as vezes em que deixava escapar das abas do avental um fragmento de coxa era o bastante para Ele imaginar o resto.
– Doutora, e então?
No hospital, tratavam-no como se fosse o marido. Trazia flores, conforto, alegria. Brincava com a paciente:
– Parece que meu destino é acompanhar mulheres no hospital... A doutora me disse que tudo está indo muito bem, mas a alta é imprevisível.
Ela pedia para as amigas enfermeiras que a mantivessem o mais ajeitada possível, sentia-se envergonhada pela languidez da convalescença. O ciclo estava no fim, a maré cheia de felicidade, por estranhas vias haviam enfim se unido. Aguardava diariamente, excitada como uma adolescente, o beijinho na testa da chegada e da saída. Mas a sombra voltou a pairar, com a ausência do amado por três dias.
– Estive ocupado, mudando de casa. A doutora está aí?
– Segunda é seu dia de folga.
– Ah é... Sabe, talvez não possa ir amanhã...
Ele estava mudado. O que mais conhecia naquele homem era a sua dissimulação. Nisto era íntima. A tristeza voltou, pois seu novo nunca amor não apareceu no dia seguinte, nem nos subsequentes. Telefonou duas vezes, uma das quais para informar que a doutora lhe daria alta no domingo e que Ele ali estaria, sem falta, para levá-la para a casa. Então, não a abandonara! Seria Ele um esquisitão, seria esse o seu jeito de amar... aquele tipo de homem que precisa mostrar que é livre...? Bem, a verdadeira natureza dele era justamente o que Ela desconhecia.

– Hora de ir pra casa...
Ele entrou no quarto e lhe deu um beijinho na testa. Você está linda! – Ele foi sincero ao enaltecê-la. Nunca havia se declarado dessa maneira, era o primeiro elogio que recebia. Num só tempo, Ela alegrou-se e pôs a pulga atrás da orelha: a naturalidade do colóquio também poderia sinalizar distância fraternal... Deixou a cisma de lado. A simpática doutora acompanhava o casal até a rua. Ele abriu a porta do carro, quando então se deu um repentino e terrível impasse: ambas menearam os corpos para entrar no veículo. Como assim – Ela pensou – ela vai? enquanto a doutora, inquirindo com os olhos o namorado, parecia dizer: Ela, na frente? Ele não pensava em nada, olhava inerte para o nono ou décimo andar do hospital...
– Vocês dois...!? – Ela disse, apontando à doutora e Ele.
E a doutora:
– Por quê? Vocês dois...? – apontando Ela e Ele. Ele balbuciou à doutora:
– Não, nada...
A nossa mulher cambaleou dois passos, virou-se, pegou um taxi no ponto e sumiu.

Tangenciavam os setenta anos, quando, numa ocasião, Ele apareceu com cara de piedade em sua porta...
– Saia. Suma!

Três anos depois desse breve episódio, no velório, Ela se debruçou no caixão chorando piamente, agarrou o rosto do defunto e lhe aplicou um beijo na boca, que não aplacou em nada a sua angústia.


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2 comentários:

Anônimo disse...

Muito boa essa história! Triste.

sabrina disse...

o que mais conhecia naquele homem era sua dissimulação.... UAU!