Nessa página de vidro pretendo simplesmente fazer caber a minha vida. Talvez falte, talvez sobre espaço, conforme o tamanho da vida em questão. É claro, estou chamando de vida o restrito departamento do trabalho. Mas a palavra cabe, se o trabalho tiver sido realizado com profundo amor. Chamamos um filho, algumas vezes, de minha vida. Talvez a produção artística tenha uma dimensão semelhante, por pobre que seja; a obra nasce de um estreito relacionamento com um Outro que reside dentro de nós, e é grande o esforço de gestação. Se o fruto não servir pra nada, a culpa não é dele, nem do autor, nem do Outro; foi com amor e esforço também que a natureza criou alguns homens, vermes e cascalhos, que deixariam perplexo quem buscasse neles um sentido de existência.

Dentre as qualidades dessa página de vidro, destaco sua transparência. A luz aqui pode entrar e sair, ser vista de frente – por mim – ou por trás – onde estão vocês. No salão informal desse espelho vazado, todos convivem de livre e espontânea vontade. Um trabalho apreciado com tal intimidade e por tantos lados se aproxima de sua razão de ser.

A página inicial não trará novidades da semana, como costuma acontecer nos verdadeiros blogs, mas conteúdos que semanalmente espero dispor em destaque, retirados dos livros e desenhos organizados no interior do blog. Poucos gostam de ler tantos contos ou poemas ou peças, ou ver tantas imagens; nessa página primeira, a maioria dos visitantes poderá ter um panorama do meu trabalho – e logo desistir, se for o caso. Portanto, somente nas páginas internas se encontrará a totalidade daquilo que quero expor.

De resto, o blog se explica por si mesmo. Vocês encontrarão nesses primeiros meses setores incompletos, por conta da cansativa revisão de todo o material, da produção das fotos de esculturas e baixo-relevos e pelas próprias dificuldades técnicas dessa mídia, tão comum às pessoas, mas estranha a mim.


8.4.12

Eco


Durma em paz, meu amor, durma
Você não sabe de nada, nada
É só um instante de mágoa, só um
(Mas um abismo profundo...)
Está tudo escuro, tão escuro
Como esse jogo é estúpido, estúpido
A mulher não quer o homem, a mulher
O homem não quer a mulher, o homem
Este vazio que seguro nas mãos, e escrevo
É a distância que separa os dois, nós dois
O saldo do destino é triste, é isto
As coisas parecem certas, certo
Amanhã já terei esquecido tudo, tudo
Te esperei o dia todo, todo
Você merece muito mais, meu amor
Alguém que entenda mais que eu, de amor
E tenha paciência de te amar, como for
Você merece muito, mais do que eu
Durma em paz, durma, durma...

(Letra de uma canção com Paulo Neves.)


Nanquim (31x24 cm)

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