Nessa página de vidro pretendo simplesmente fazer caber a minha vida. Talvez falte, talvez sobre espaço, conforme o tamanho da vida em questão. É claro, estou chamando de vida o restrito departamento do trabalho. Mas a palavra cabe, se o trabalho tiver sido realizado com profundo amor. Chamamos um filho, algumas vezes, de minha vida. Talvez a produção artística tenha uma dimensão semelhante, por pobre que seja; a obra nasce de um estreito relacionamento com um Outro que reside dentro de nós, e é grande o esforço de gestação. Se o fruto não servir pra nada, a culpa não é dele, nem do autor, nem do Outro; foi com amor e esforço também que a natureza criou alguns homens, vermes e cascalhos, que deixariam perplexo quem buscasse neles um sentido de existência.

Dentre as qualidades dessa página de vidro, destaco sua transparência. A luz aqui pode entrar e sair, ser vista de frente – por mim – ou por trás – onde estão vocês. No salão informal desse espelho vazado, todos convivem de livre e espontânea vontade. Um trabalho apreciado com tal intimidade e por tantos lados se aproxima de sua razão de ser.

A página inicial não trará novidades da semana, como costuma acontecer nos verdadeiros blogs, mas conteúdos que semanalmente espero dispor em destaque, retirados dos livros e desenhos organizados no interior do blog. Poucos gostam de ler tantos contos ou poemas ou peças, ou ver tantas imagens; nessa página primeira, a maioria dos visitantes poderá ter um panorama do meu trabalho – e logo desistir, se for o caso. Portanto, somente nas páginas internas se encontrará a totalidade daquilo que quero expor.

De resto, o blog se explica por si mesmo. Vocês encontrarão nesses primeiros meses setores incompletos, por conta da cansativa revisão de todo o material, da produção das fotos de esculturas e baixo-relevos e pelas próprias dificuldades técnicas dessa mídia, tão comum às pessoas, mas estranha a mim.


14.7.12


A fogueira



Sobre a terra ou na lareira, a fogueira expressa o espírito daquele que a acendeu e que a contempla e cuida. Portanto, cada fogueira tem seu caráter, não por seus galhos e lenhas, mas por fidelidade ao dono. (Essa é a razão de um homem não gostar que outro mexa em sua fogueira. Minha mulher já ralhou comigo por isso.)
A água propõe questões filosóficas - dentre outros motivos, o seu movimento tem correspondências com o tempo -, o fogo invoca questões religiosas, exatamente por não ter forma. Contudo, assemelham-se quanto à relação de dependência: se a água é limitada por um continente, o fogo depende da matéria.
Conforme o espírito do criador de uma fogueira, o fogo pode ser íntegro ou disperso, agudo ou tranquilo; conforme seu cuidado, pode durar ou se extinguir; conforme sua contemplação, pode se rebaixar como simples fonte de calor ou ascender como mistério para a alma.
A metáfora que relaciona a fogueira com a vida que nasce, brilha, obscurece e vira cinzas é óbvia e superficial. Sua estrutura é exatamente contrária às transformações da vida; a base de um fogo são gravetinhos que queimam gravetos que queimam lenhas finas que queimam lenhas grossas. O elemento fraco está na base. E ainda, antes que sua potência diminua, acrescentamos outra peça de lenha pesada sobre sua estrutura já debilitada pelo fogo - o que costuma acarretar desabamentos e exigir constantes reparos. Aliás, desabamentos ocorrem quer ponhamos mais lenha ou não, pois a fogueira precisa ser sempre reconstruída, já que sua base sempre se desintegra. Não acho que esse processo possa servir como metáfora à vida, mesmo considerando que inúmeras vezes carregamos pesos demasiados nas costas. Contudo, estes raramente aniquilam nossas bases.
(Melhor metáfora para o decorrer da vida é a da água com seu fluxo contínuo contido por um leito que se deforma quando de uma enchente, mas que se recobra com o tempo. O fogo é um fenômeno por natureza descontínuo.)
O fogo de uma fogueira é uma excelente metáfora para as coisas impalpáveis do espírito, como a beleza, a compreensão e a fé. O esforço de assimilação dessas forças nos abate internamente com o peso de um fardo – a luz tem um peso enorme - que costuma desabar toda vez nossas bases psíquicas frágeis e mesquinhas.
É preciso ressaltar que ninguém tem posse do fogo, ao contrário da água que se pode comprar e armazenar (mesmo não sendo própria pra isso).
As cores vermelha e negra da brasa (o negro-fuligem da madeira queimada) não existem em outro lugar da natureza ou da arte. São irreprodutíveis. Sim, também o azul do céu é irreprodutível, mas inventamos uma correspondência razoável com as tintas. Quanto as cores da brasa, não chegamos perto. É pura luz que, curiosamente, não ilumina o ambiente, apenas a si mesma. Até um vagalume tem um poder de luminosidade maior.
Os homens tendem a gostar mais de um fogo feito na lareira ou na terra, enquanto as mulheres, num fogão de lenha. Até aqui elas são mais objetivas.
Uma fogueira canta, estala, assovia, em certos momentos chega a parecer uma garoa caindo sobre a terra. É a madeira se entregando sensualmente para a chama que a envolve e consome, numa relação que conta com a dor da entrega de sua carne para o prazer sublime de sua consumição. Há madeiras duras e altivas que se recusam a morrer por esse prazer.
Pra que servem a beleza, a compreensão e a fé? É o que as cinzas da fogueira respondem.



Carimbo (51x38 cm)

Um comentário:

bia reinach disse...

Zé,
Eu prefiro o fogo na lareira, não saberia o que fazer com o fogão a lenha.... curioso, este final de semana ficamos Nina e eu na frente do fogo comentando sua beleza ...
Que delicadeza de carimbo!
Continuo passeando por aqui ... sempre!
beijos