Nessa página de vidro pretendo simplesmente fazer caber a minha vida. Talvez falte, talvez sobre espaço, conforme o tamanho da vida em questão. É claro, estou chamando de vida o restrito departamento do trabalho. Mas a palavra cabe, se o trabalho tiver sido realizado com profundo amor. Chamamos um filho, algumas vezes, de minha vida. Talvez a produção artística tenha uma dimensão semelhante, por pobre que seja; a obra nasce de um estreito relacionamento com um Outro que reside dentro de nós, e é grande o esforço de gestação. Se o fruto não servir pra nada, a culpa não é dele, nem do autor, nem do Outro; foi com amor e esforço também que a natureza criou alguns homens, vermes e cascalhos, que deixariam perplexo quem buscasse neles um sentido de existência.

Dentre as qualidades dessa página de vidro, destaco sua transparência. A luz aqui pode entrar e sair, ser vista de frente – por mim – ou por trás – onde estão vocês. No salão informal desse espelho vazado, todos convivem de livre e espontânea vontade. Um trabalho apreciado com tal intimidade e por tantos lados se aproxima de sua razão de ser.

A página inicial não trará novidades da semana, como costuma acontecer nos verdadeiros blogs, mas conteúdos que semanalmente espero dispor em destaque, retirados dos livros e desenhos organizados no interior do blog. Poucos gostam de ler tantos contos ou poemas ou peças, ou ver tantas imagens; nessa página primeira, a maioria dos visitantes poderá ter um panorama do meu trabalho – e logo desistir, se for o caso. Portanto, somente nas páginas internas se encontrará a totalidade daquilo que quero expor.

De resto, o blog se explica por si mesmo. Vocês encontrarão nesses primeiros meses setores incompletos, por conta da cansativa revisão de todo o material, da produção das fotos de esculturas e baixo-relevos e pelas próprias dificuldades técnicas dessa mídia, tão comum às pessoas, mas estranha a mim.


28.9.12

Real Fantasia 
 
 
Estava mais triste que de costume, fui pra cama sem qualquer futuro. Rezei o pai-nosso com especial fervor, me encolhi debaixo do acolchoado e esperei o sono. Não percebi que dormia quando por acaso a sola do meu pé tocou uma coisa quente, outro pé, como cri. Sonhava, é claro, mas tinha a sensação plena de estar acordado. Era gostoso aquilo, um pequeno pé, pé de mulher evidentemente. Meu sonho materializava o grande desejo de ter uma companheira, alguém que dormisse todas as noites comigo. Mas, Deus meu, não era sonho não, meus olhos estavam abertos e viam detalhadamente o quarto escuro, a réstia de luz na veneziana, a sombra das roupas no chão - e a sola do meu pé roçava o pé de uma mulher! Usava meia. Não queria me mexer, tinha medo de despertar ou, caso estivesse acordado, que a doce sensação simplesmente desaparecesse. A verdade é que os minutos passavam, e um sonho não duraria assim igual, retilíneo, sem nada acontecer. A curiosidade crescia, precisava saber se atrás de mim havia algo mais que o pé de uma mulher. Minha estratégia foi virar-me lentamente na direção contrária, mantendo até quando pude nossos pés unidos. Claro, para completar o movimento tive enfim que perder o contato e tremi; agora, com o corpo reposicionado, perdido o pé, minha mão receava afundar-se no vazio. Todavia, a meu favor, sentia um estranho calor na cama, até mesmo um cheiro de corpo, se não estivesse alucinando – e fui esticando o braço em busca de uma matéria concreta. Era! Havia! Havia uma mulher, as pontas dos meus dedos tocaram uma cintura – ela existia, ou o sonho continuava... Pousei então a palma da mão e conclui que meu fantasma estava de costas, com uma roupa fina, decerto uma camisola. Uma alegria adolescente me invadiu, um frisson: uma mulher dormia comigo, na minha cama! Permaneci imóvel; qualquer gesto precipitado poderia dissipá-la. E estava tão bom assim, pra que mais? Ora, isto não se sustentava, meus instintos impulsionavam-me a continuar, e me peguei mexendo os dedinhos, descendo, centímetro por centímetro, até atingirem os primeiros sinais de uma pele de coxa. Oh não, que encanto, então usava uma camisola curtinha e oferecia pra mim a nudez das pernas! Lembrei de conferir novamente aquele pé que de fato continuava no lugar, o que me serviu para esboçar um quadro bastante razoável de como estaria vestida: camisola miudinha, meias e... será?... nossa senhora, posso?... não, não, devia esperar, nem minimamente a conhecia, precisava antes me inteirar de seu corpo como um todo. Seria gorda, magra, menina, senhora? Vamos lá. Retornei a mão na posição inicial e recomecei a exploração aos poucos pela barriga. Ora, ora, gordinha, mas durinha! Virei a esquerda, devagar, e me deparei com a protuberância de um seio. Vige! Fugi de pronto, recolhendo a mão de novo na cintura. Mas a mão, danada, voltou por si a procurar aquele seio, onde chegou hesitante, entre tocar e recuar, como um gato medroso. Enfim, evidentemente, pousei a dita em cheio no côncavo e conheci toda a sua extensão. Que grandeza! Então..., ixe, biq... o bico, o biquinho! Aquilo mexeu comigo, me excitou de súbito. Colei meu corpo – ê tesão! –, todo ele encaixado! Tirei a ceroula para sentir as pernas. Quanto tempo! A excitação precipitava os gestos, a mão descontrolada alternava-se entre seios e coxas, mas ainda não atrevia: estaria nua ou de calcinha? Devagar, calma, era preciso se conter. Lentamente, ao deslocar a camisola, meus dedos sem querer resvalaram na alça do pano: calcinha! Oh, oh, eh! que gracinha! Mandei ver; a mão agora apalpava sua bunda, no instante seguinte invadia a zona proibida, eu havia de fato perdido o controle. Recompus-me, cheguei até a me afastar um pouco. Meu coração batia sinos. Quem diz que posso? Eu a conheço? Ela me quer? Mas se está na minha cama... E, além do mais, tudo podia ainda ser um delírio – porque a hipótese de sonho estava descartada. Contudo, se for uma fantasia, seria completamente minha. Caso não fosse, então ela me quer; ninguém me condenaria por tocar uma mulher que, existindo ou não, oferece-se a mim em meu próprio leito. Voltei à caça. Mão direto na bunda. Jamais experimentara nada igual, aquela pele lisa conduzia-me para o interior e, de repente... pelinhos! os pelinhos do cu. Não podia mais, aquilo era demais. Baixei de supetão sua calcinha, no que fui, ao que parece, até ajudado. Não, engano; continuava imóvel. Ali, ladeira abaixo, os pelos avolumaram-se, úmidos, vivos – era uma mulher e me queria! Preparei-me atabalhoado para a penetração, a posição não favorecia; agarrei-a então com firmeza, sem qualquer cuidado, não podia mais, se não fosse real já teria sumido, mas não, era de carne pura e funda e macia e perfumada...
 
Amei, amei, amei. Nenhum astronauta foi mais longe. Suei tanto que precisava me livrar da coberta, entretanto, mesmo diante de tamanha evidência, ainda restava qualquer temor de que o encanto se quebrasse. Porque queria mais. Não conseguiria agora simplesmente fechar os olhos e dormir, como se nada tivesse havido. Quanto tempo eu não experimentava uma mulher! E se ela fosse embora? Melhor não tirar o acolchoado. Queria mais, e meti a mão novamente no buraco. Foi quando ela se virou e disse impaciente:
 
– Agora chega, Zé! preciso acordar amanhã cedinho.



3 comentários:

Tâmara Braga Ribeiro disse...

Muito bom !

bia reinach disse...

Zé, li já há algumas semanas, e desde este dia, volto a pensar nele, lembrar, saborear... que delícia de texto.
beijos bia

RubensMoraes disse...

Ha ha! Que ótimo!