Nessa página de vidro pretendo simplesmente fazer caber a minha vida. Talvez falte, talvez sobre espaço, conforme o tamanho da vida em questão. É claro, estou chamando de vida o restrito departamento do trabalho. Mas a palavra cabe, se o trabalho tiver sido realizado com profundo amor. Chamamos um filho, algumas vezes, de minha vida. Talvez a produção artística tenha uma dimensão semelhante, por pobre que seja; a obra nasce de um estreito relacionamento com um Outro que reside dentro de nós, e é grande o esforço de gestação. Se o fruto não servir pra nada, a culpa não é dele, nem do autor, nem do Outro; foi com amor e esforço também que a natureza criou alguns homens, vermes e cascalhos, que deixariam perplexo quem buscasse neles um sentido de existência.

Dentre as qualidades dessa página de vidro, destaco sua transparência. A luz aqui pode entrar e sair, ser vista de frente – por mim – ou por trás – onde estão vocês. No salão informal desse espelho vazado, todos convivem de livre e espontânea vontade. Um trabalho apreciado com tal intimidade e por tantos lados se aproxima de sua razão de ser.

A página inicial não trará novidades da semana, como costuma acontecer nos verdadeiros blogs, mas conteúdos que semanalmente espero dispor em destaque, retirados dos livros e desenhos organizados no interior do blog. Poucos gostam de ler tantos contos ou poemas ou peças, ou ver tantas imagens; nessa página primeira, a maioria dos visitantes poderá ter um panorama do meu trabalho – e logo desistir, se for o caso. Portanto, somente nas páginas internas se encontrará a totalidade daquilo que quero expor.

De resto, o blog se explica por si mesmo. Vocês encontrarão nesses primeiros meses setores incompletos, por conta da cansativa revisão de todo o material, da produção das fotos de esculturas e baixo-relevos e pelas próprias dificuldades técnicas dessa mídia, tão comum às pessoas, mas estranha a mim.


12.10.12

 
As Horas


A hora é uma experiência empírica
que exige uma aritmética gótica,
por exemplo: a hora do pesadelo
é uma dízima periódica, a hora
do gozo, um número primo
e a hora do recreio do menino,
um eufórico logaritmo.
 
A hora se dilata na labuta do dia
ou se contrai na luta da criação.
Têm horas homeopáticas, ninguém sente
horas idênticas de raiva de medo de fome de sede
horas eternas de verdadeira paixão
hora que sequer passa pois pula
hora que dura exatamente duas.
 
A hora do bicho é agora, a hora
da planta é sempre, a do objeto é nunca.
As horas da humanidade guardam um segredo
pois se dispersam, evaporam e viajam em nuvens
e nos polos se condensam em gelo
trilhões de camadas de horas vãs
horas perdidas em tantas mazelas.
 
Têm horas que nunca existiram, tenho certeza
muitas, a maioria, nem nos foram dadas.
E serão no fim acrescentadas
na contabilidade de nossas vidas
e mais velhos seremos tantos anos
por horas que não usamos, horas ocas
horas fantasmas, horas dívidas.
 
 
 
 
 
Parafina
 

2 comentários:

bia reinach disse...

Impressionante!
Por que uma palavra do poema está sublinhada e quando passo o cursor aparece uma propaganda? Escolha tua?
"na contabilidade de nossas vidas" Na postagem a palavra contabilidade encontra-se sublinhada.

Bia

AngeloMundy disse...

que lindo, Zé! Chorei lendo... beijo, Angelo