Anais da Medicina
Esse caso é verídico, bastante comentado no início da década de setenta, época em que a virgindade ainda era um tabu. Um jovem bonitão, vinte e três anos, se engraça com sua querida prima, uma princesinha de dezesseis, e lá um dia não podem mais: a menina cede, mas pelo rabo (procedimento comum naqueles anos, como forma de contornar o problema). E então acontece o drama dos jovens, comédia para nós.
Os pais os pegam no flagra e a filha, em estado de choque, trava o ânus. Três vozes ecoam na sala: a mãe grita, o pai xinga e o desesperado rapaz berra solta, solta... Ato contínuo, o pai esbofeteia a filha emudecida e chuta o sobrinho, usando aquele típico linguajar: sem vergonha, cafajeste, canalha... Mas a garota está fora de órbita e não solta o negócio de jeito nenhum. Agora, a mãe agarra os cabelos da filha dizendo você arruinou minha vida... e o pai parte de porrada na cara do menino que grita vários ais, ao mesmo tempo pelas pancadas que recebe e a dor no pinto que tenta arrancar. Então, a hora e a vez da ameaça: seu filho da puta, vou contar até três, se você não tirar daí eu juro que corto essa porra fora, um... O desditoso, com os braços abertos, para o tio: não dá, tá doendo pra caralho, ela travou, não sai... Dois, três: Denise, segure bem a menina, vou dar um jeito nisso e é já! Agarrando-o pela cintura, puxa (ai, ai!), puxa, até o sobrinho lhe aplicar um violento safanão e enfrentá-lo com braveza de gente grande: porra, tio, não dá, calma aí, ela tem que soltar! A mãe quer desmaiar, mas um susto a recompõe de imediato: quem desmaia é a menina. O pai recua, a mãe prende o choro e fala o que o marido já via: a Sissinha desmaiou! Ele traga água, ela melhor sal, ele pegue água e sal, ela está branca, ele, medindo o pulso, está batendo – e o jovem aos prantos, com a cabeça nas costas da prima (ai...), e a garota de bunda pra cima e a cara estatelada no chão.
Não dá pra eu tirar... ai... o rapaz chorando, repete a frase como um bordão, ouvindo como resposta vários “canalha”. A menina abre os olhos esbugalhados, seu olhar está longe, virado, e só faz tombar de lado, levando consigo o cavaleiro para o chão. O pai se prostra na poltrona, nesse momento é ele quem emudece. A chorosa mãe muda de tática, e com voz adocicada fala com a filha, enquanto acaricia aquele frágil rosto molhado de suor: filhinha, relaxe, solte o Anselmo, isso não pode continuar assim, você errou, tudo bem, mas agora precisa relaxar, acabar com isso... Os olhos da jovenzinha parecem saltar. Filhinha, o susto já passou, solte o Anselmo, por favor..., e batendo delicadamente numa nádega relaxe aqui, filhinha, está prendendo... machucando o Anselmo... Que soluçando, acrescenta sem nenhuma psicologia: pô, Sissinha, pelo amor de Deus, me solta, eu não aguento mais, e sacoleja os flancos da prima, buscando despertá-la para a realidade. O pai, afundado na poltrona, olha pra uma diagonal. De repente, o drama se complica: a menina inicia uma convulsão, babando, tremendo e revirando os olhos. Nelson, nossa filha...! O marido desperta. – O que é que eu faço?– Pegue a língua! – Precisamos ir para o hospital. Deus misericordioso! – Chame uma ambulância. – É melhor a gente levar, pra não chamar a atenção. – Vamos, rápido. Então, o jovem: e o que é que eu faço? – Canalha, quando isso acabar a gente conversa. – Nelson, rápido! – Ponha uma blusa nela. E você, vista isso, rápido. Precisamos de um lençol, rápido! Suplica novamente o infeliz: mas o que que eu faço, meu Deus? O pai: venha, carregue a Sissinha. A mãe chega com o pano e enrola o casal. Não dá pra ficar em pé com ela! O tio: dá, sua besta, dá sim. Para Anselmo conseguir andar, a menina agonizante tomba a cabeça para frente, as pernas ficam suspensas e seguras por ele o que, enrolados ao lençol que a mãe mantém fechado com as mãos, faz do conjunto um pequeno bumba-meu-boi. Bem que queriam ter a sorte de não serem vistos por ninguém ao saírem no jardim, mas não era o dia da família; atraídos, é certo, pelos berros, cortinas e portas entreabrem-se furtivamente, um grupo de colegas da menina disfarçam sentados na calçada e a vizinha de frente, na janela: dona Denise, algum problema? – Minha filha está passando mal. Os meninos esticam os pescoços, enquanto daquela janela: o que ela tem? O casal atrelado entra aos tropeços no carro, o pai já dentro, enquanto a mãe responde: convulsão, estamos indo pro hospital. Obrigada. Mas a família não pode ocultar a bizarra imagem da garota no colo do namorado, cobertos pelo pano branco como se passassem frio, quem sabe...
Muita coisa estava por vir, e ainda pior. A mãe se recusa a entrar sem o marido no hospital, quando este tenta escapar dizendo que precisava estacionar o carro . Descem então em meio àquele entra-e-sai de um pronto-socorro, deixando catatônicas as pessoas que assistem à cena, e que só não riem descaradamente pelo aspecto cadavérico estampado nas feições da menina. Mas o zunzunzum se espalha até a antessala da enfermaria. A pobre família nota uma falsa movimentação entre enfermeiros, funcionários e pacientes, que vão e voltam sem clara justificativa. Desnecessário dizer que o namorado geme, a mulher chora e o esposo olha fixo pra uma diagonal... Dentro do consultório, enfim, o pai retira abruptamente o lençol e exclama: doutor, dê um jeito nisso! Quando o médico percebe do que se trata, engole saliva tentando manter uma precária seriedade. O pai pontua que já fizeram de tudo, a mãe, que a filha teve convulsão, mas o médico não ouve; está à beira de um ataque de riso, pede licença, diz que buscará ajuda, e sai abruptamente da sala para liberar o acesso. A saleta de espera está repleta de abelhudos sarcásticos. Ele demora uma eternidade para uma família aflita, e traz consigo quatro médicos, argumentando que precisava de uma junta. A mãe, notando a hipocrisia, avança para cima do tal juntamento e fala com todas as letras: minha filha está morrendo! Somente então o doutor responsável se toca com o estado desfigurado da menina. Nesse mesmo instante, o gemedor grita para todo o hospital ouvir: aiii, preciso mijar!
Ordens para ir direto ao centro cirúrgico, cadeira de rodas, enfermeiras – uma pequena multidão acompanha o deslocamento e o caso se espalha feito vírus no hospital. A bexiga do comedor em vias de estourar, os médicos sem saber o que fazer. Quanto à menina, soro e doses maciças de calmante e relaxante muscular parecem o suficiente; o problema se resolveria em meia-hora, no máximo. Mas, que procedimento tomar em relação ao rapaz? Discutem – nessa altura, a junta médica crescia e se justificava. (A mãe chora, o pai olhando fixo para...) O caso do jovem se complica: passa a debater-se, em seguida a bater na própria prima, no que logo é contido pelos médicos que o amarram à cadeira. Sua dor não minimiza, a primeira opção é sedá-lo. Talvez precisem fazer uma inserção direta na bexiga, outro propõe um corte no reto da menina, mas estão inseguros: cirurgia num caso desse, por conta de alguns minutos... Um médico cochicha ao jovem: não dá pra fazer aí dentro? O paciente responde em outro tom, nada discreto: não dá, caralho, não sai! Retiram os pais do quarto, porém estes logo retornam, ao se depararem com um hospital inteiro, lá fora, de plantão. A discussão continua, um estagiário levanta este dilema: tanto na bexiga de um como no ânus da outra, o acesso ao local da cirurgia está complicado...
Um respeitável médico é convocado e aconselha com sabedoria: calma. Vamos abrir um pequeno orifício e introduzir uma sonda na bexiga do rapaz, depois é só esperar – as fezes da mocinha não têm urgência. Procedimento realizado, os dois agora repousam abraçadinhos numa cama especial. Os pais, sob efeito de sedativos, desabam no sofá do quarto. A noite simplesmente passa, com excesso de zelo dos enfermeiros, que fazem questão de examinar inúmeras vezes a intimidade do casal para saber se a menina havia desprendido.
Como estão? Soube que ainda não soltou... – Doutor, eu não sinto nada, será que necrosou? – Vamos ter que fazer uma chapa. A menina está bem, mantém os olhos fechados por recato e ainda não pronunciou palavra alguma. O pai saiu cedinho, apressadamente, descendo os oito andares pela escada, de cabeça baixa, evitando qualquer olhar; mas, para sua surpresa, na porta do hospital, enfrenta dois repórteres de rádios populares: não foi nada, não foi nada, minha filha teve uma convulsão, por favor, dão licença. A radiografia indica que o sangue ainda flui no membro. A mãe queria rezar na capela, mas é abordada por uma freira que lhe aconselha a se confessar; irritada, volta a se fechar no quarto, onde a humilhação não parece menor: um médico, por exemplo, batendo numa nádega da menina, diz: vamos relaxar, mocinha, sua mãe precisa ir embora... outro, para o jovem, você entrou pelo cano... outro, para a mãe, pelo menos, minha senhora, ela nunca mais fará isso... Contudo, quanto ao caso clínico em si, o astral melhora: o menino come com apetite, a menina belisca alguma coisa e pronuncia suas primeiras palavras: preciso ir ao banheiro. A mãe retruca: não dá. Tem que fazer na comadre ou pedir pra pôr a sonda de novo. O namorado: a gente dá um jeito, tia. A garota: é, dá...! O rapaz se levanta, levando a prima no colo e a mãe a tiracolo. Ao sair o xixi, o namorado cochicha alguma coisa no ouvido da prima que esboça um sorriso. A mãe de imediato repreende: sem-vergonha você, não, Sissinha? fica muda o tempo todo, mas pra pensar bobagem está tudo bem, não é? Você me paga!A menina baixa a cabeça, o namorado fez menção de enxugá-la, mas a mãe: ela sabe muito bem se limpar sozinha; o cu está preso mas as mãos estão livrinhas da silva! – Tia Denise...! – É isso mesmo, seu pilantra, e não me chame mais de tia. Quando meu irmão souber... vocês não têm ideia do que eu e o Nelson estamos passando... etc. etc. Os dois se encolhem na cama com aquela mulher falando sem parar, o que induz no casal um sono profundo. O dia segue na mesma balada; dessa vez é o menino quem quer ir ao banheiro fazer cocô, tia!, e lá vão os três, tia, dá licença, assim não posso, por favor! Encostam a porta, a menina se aconchega melhor em seu colo, enquanto o namorado passa a mão por baixo de sua blusa.
Era um tal de ir ao banheiro, dormir, comer e voltar ao banheiro, que a mulher põe a boca no trombone quando o marido retorna. Diz que estão sendo enganados, que eles fizeram isso, aquilo... Seu Nelson: Eles vão me pagar. Não vai ficar assim, não. Essa menina vai pro internato. Isso já nos custou os olhos da cara, e mais um dia de hospital... Mas teu irmão vai pagar a conta, ah, vai! – Por favor, tio, não conte pra ele... – A cidade inteira já sabe. E eu não sou seu tio, vagabundo. Vocês não imaginam a humilhação. A molecada passando trote... Aquela besta do seu pai vai pagar direitinho... – Meu irmão não tem dinheiro, você sabe disso, Nelson... – Você está defendendo aquele vagabundo? – Não é isso; só estou dizendo que meu irmão não tem nada com isso... – Como não? se tivesse educado... – Ele não tem culpa da irresponsabilidade desses jovens de hoje... – Eu te pago, tio... – Você nem tem onde cair morto... etc. O pai intempestivamente vai embora. O médico dá novo calmante para a mãe, pede paciência, que com tanto relaxante a menina soltaria a qualquer momento...
Se amanhã pela manhã esse negócio não sair, vamos abrir o buraco da menina, foi o medicão dando um ultimato no entardecer do dia seguinte, em que não houve maiores novidades; o casalzinho é que vem trocando mais e mais palavras, sempre aos sussurros, evitando aumentar a irritação da mãe. Dizendo-se exausta, nessa noite a mulher acompanha o marido, e ambos vão pernoitar em casa. Sua filha e o namorado, enfim, ficam a sós, ao menos na entressafra de médicos e enfermeiros. Sissizinha, os caras vão te abrir à força. – Não vão não. – Vão sim, e abraça a prima carinhosamente. A menina está um tanto serelepe: vamos no banheiro fazer xixi? – De novo? Pô, me dói meu corte... Contudo, quando alguém entra no quarto, os dois imediatamente fazem cara de abatidos.
E naquela madrugada: Selminho, não vê, seu bobo? ela remexia levemente os quadris. Ver o quê? – Que entra e sai... Anselmo entende: o quê? Tira abruptamente o lençol e dá de cara com seu pinto fora. Não o sente; está branco, amarrotado. Vige Maria...! – Agora pode entrar, que eu solto. – Como você conseguiu? – De repente... – Ele está amortecido. – Coitadinho... ela rindo de felicidade. Quis virar-se para o namorado que a repreende: não. Fica aí que se eles aparecem... E então, o que nós vamos fazer? Estamos fodidos... – Estávamos... – Ei! Ele está formigando. – Se chegar alguém você põe depressa. – Mas ele está mole! – Mas entra... Os jovens estão excitados com a nova situação, divertindo-se com o próprio medo. Selminho, e se a gente casar? – Sissinha, você é menor de... – E daí? a gente pede autorização. – Seu pai nunca... – Mas é um jeito de dar um jeito... senão a vergonha vai passar pra nós... Como é que eu vou encarar meus colegas? E mesmo você, já pensou? A gente se casa e vai morar em outro lugar... – Mas lindinha, eu não ganho um puto! – Tem que ganhar. E eu também... Trocam muitas idéias, é alta madrugada, há pouco movimento no hospital. Casar, fugir, enfrentar; o episódio une os dois numa solidariedade carinhosa e verdadeira. Apaixonam-se. Chega o momento dos beijos ardentes, pouco depois, o barulho da porta. A menina posta-se adequadamente e ele enterra a pica no ato. Fingem que despertam, entra um enfermeiro: hora da medicação – que a menina cospe sutilmente embaixo do travesseiro. Tudo bem com a sonda. O intruso sai, o jovem começa o movimento. A prima retribui empinando o quadril. A coisa esquenta: a cama range, a menina geme, o rapaz bufa, o lençol voa para o chão. Agora eles estão de quatro, e foda-se o mundo lá fora!
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| Pastel (18,5x28 cm) |
2 comentários:
Ai Zé,
Tô aqui gargalhando!!!
Teu blogue tá demais!!!!
DEMAIS!!!!
bia
Sabe qual era a palavra que tive que digitar para postar meu comentário?
COZON
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