O concerto começa com o músico fazendo a mímica de um solo de bateria, sentado diante de um caixote de ripas. O silêncio rítmico da cena é quebrado seguidamente pela batida estridente da baqueta no caixote, toda vez que o músico-mímico toca a caixa de sua bateria imaginária. Este timbre agressivo destoa completamente da imagem sonora que se pressente através da precisão de seus gestos, motivo pelo qual lhe ofereço, sentado a seu lado, o meu banquinho de madeira maciça. O baterista aceita a troca e reinicia o solo, sugerindo agora um ritmo de batucada.
Quando então se escuta o som de um chiado que talvez venha do fundo do palco. Agora vejo bem: são vários músicos tocando chocalhos de areia em tubos cilíndricos, mas cada qual segue um ritmo próprio. Na verdade, esse chiado é quase um sussurro, de tão baixo. Aos poucos, porém, o ouvido se acostuma, e passa a distinguir o som sutil da areia escorrendo pelo tubo muito fino e comprido que um deles maneja como uma vara de malabarista. Enquanto isso, do outro lado do palco – para onde todos agora se voltam –, uma estranha engrenagem de ferros retorcidos, semelhante a um fogão antigo, enche e esvazia uma bexiga de gás presa no bico da tubulação, mantendo uma pulsação que varia entre o semicheio ao semivazio.
(O efeito desse momento me recorda uma outra peça do mesmo autor, que assisti há muito tempo no teatro de uma faculdade. Naquela ocasião, um músico jogava bolinhas de gude num balde metálico, enquanto um despertador contracenava fazendo tique-taque. Mas, ao contrário da previsível expectativa, que naquele concerto era a própria razão de ser, de aguardar a iminência do despertador despertar, desta vez estamos seguros de que a bexiga não vai estourar.)
A música permanece um longo período nesse andamento um tanto monótono, em que a única variação que se observa me parece um disparate: aqueles instrumentistas que cuidadosamente executam pianíssimo os chocalhos de súbito jogam seus instrumentos num canto da coxia, sem se importarem com o ruído da queda.
(Um segundo disparate se evidencia num músico bastante concentrado, quase rente à saída do palco, tocando uma bucha comprida como se fosse um berimbau, sem emitir, obviamente, som algum. Mas é provável que eu não esteja entendendo o rigor do concerto. E agora também ele joga a bucha no chão...)
Algo me chama a atenção à esquerda do palco, onde se ergue um cenário com grandes paralelepípedos dispostos lado a lado em prateleiras, como se estivessem esperando a vez de serem tocados. São diferentes entre si (observa-me um músico), e, dentre eles, um se destaca inteiramente dourado. Me aproximo curioso, querendo examinar sua matéria. Reparo que o dourado não é próprio da pedra, mas de uma folha fina e artificial – talvez de ouro – que a recobre inteiramente, e que vem se desprendendo pouco a pouco, soltando mínimos estalos e criando inúmeras casquinhas. Digo a todos que se reúnem à minha volta: "deixem isso aí".
O concerto se desenvolve numa cadência que permite, ou mesmo induz, que possa ser esquecido por músicos e público. Aproveito para notar como o teatro é pequeno e também que mais da metade dos lugares estão vazios. Passeio pelos bastidores, e encontro meu pai sentado numa confortável poltrona, dizendo às pessoas ao derredor: "John Cage é um gênio!". Minha irmã, agachada, brinca com um gatinho. Ouço palmas que vêm da platéia. Retorno ao palco e me encosto numa coluna. O público está entusiasmado com a ação de três roqueiros que levantam-se de suas cadeiras e sobem ao palco, onde tomam lugar em torno de um microfone colocado à frente das prateleiras. O ingresso desses jovens musculosos e tatuados contrasta com os demais músicos, também jovens, mas um pouco raquíticos e tímidos. Apesar disso, a jovialidade do grupo como um todo acentua ainda mais o caráter romântico da experiência, inevitável nos concertos contemporâneos.
Então as luzes apagam-se e a vista acostuma-se com a penumbra. Um deles abaixa um tom na afinação de sua guitarra. Os ritmos dos chocalhos, novamente acionados, parecem querer entrar num acordo. Essa nova ordem rítmica, bem como um progressivo aumento do volume sonoro, impõe uma concentração geral. O roqueiro líder reúne todos os músicos no fundo do palco. Estamos sendo conduzidos para o grande final. Com passos ritmados, eles se aproximam de um enorme maciço deitado no centro do palco, coberto por uma capa preta. O tal que comanda cria uma intensa expectativa antes de retirar a capa – como um gorila, segura com a mão esquerda uma das pontas do plástico, enquanto a outra levanta um pedaço de pau em tom ameaçador. Um foco de luz sobre ele ajuda a dramaticidade da cena. Quando arranca a capa de vez, aparece uma pilha de madeiras aparelhadas e entrelaçadas, cercada por pequenos tocos chamuscados soltos pelo chão. O ritmo hipnótico dos chocalhos confere ao público um tenso ilusionismo de que o jovem líder, com aquele pau – que em meio à catarse alucinante mais parece uma tocha acesa –, ponha fogo no monte de madeiras e, consequentemente, no teatro. E o pânico aumenta com o movimento uniforme dos músicos que se inclinam pra frente quando ele ameaça tocar fogo, e voltam-se pra trás, quando este recua. Eu também me sinto aterrorizado neste momento, sem saber se o espetáculo perdera o limite. Mas de alguma forma tenho pé do ridículo do meu temor.
De repente o grupo se dispersa e desaparece do palco, que fica simplesmente vazio. Então eu vejo um fio de fumaça que não vem das madeiras, mas da ponta de um pino ou de um parafuso qualquer, aqui, bem do meu lado – o que me preocupa é que a chama, ainda pequena, venha a se alastrar. Os músicos definitivamente foram embora deixando pra nós a responsabilidade sobre o fogo. O público permanece paralisado um breve momento, hesitante. Logo tomo a iniciativa e, com a ajuda de alguém que sobe da plateia, precipitamos estabanados a cuspir na chama, até que o fogo se apaga e o concerto termina.
 |
| Xilogravura (20x11 cm) |
Nenhum comentário:
Postar um comentário