Nessa página de vidro pretendo simplesmente fazer caber a minha vida. Talvez falte, talvez sobre espaço, conforme o tamanho da vida em questão. É claro, estou chamando de vida o restrito departamento do trabalho. Mas a palavra cabe, se o trabalho tiver sido realizado com profundo amor. Chamamos um filho, algumas vezes, de minha vida. Talvez a produção artística tenha uma dimensão semelhante, por pobre que seja; a obra nasce de um estreito relacionamento com um Outro que reside dentro de nós, e é grande o esforço de gestação. Se o fruto não servir pra nada, a culpa não é dele, nem do autor, nem do Outro; foi com amor e esforço também que a natureza criou alguns homens, vermes e cascalhos, que deixariam perplexo quem buscasse neles um sentido de existência.

Dentre as qualidades dessa página de vidro, destaco sua transparência. A luz aqui pode entrar e sair, ser vista de frente – por mim – ou por trás – onde estão vocês. No salão informal desse espelho vazado, todos convivem de livre e espontânea vontade. Um trabalho apreciado com tal intimidade e por tantos lados se aproxima de sua razão de ser.

A página inicial não trará novidades da semana, como costuma acontecer nos verdadeiros blogs, mas conteúdos que semanalmente espero dispor em destaque, retirados dos livros e desenhos organizados no interior do blog. Poucos gostam de ler tantos contos ou poemas ou peças, ou ver tantas imagens; nessa página primeira, a maioria dos visitantes poderá ter um panorama do meu trabalho – e logo desistir, se for o caso. Portanto, somente nas páginas internas se encontrará a totalidade daquilo que quero expor.

De resto, o blog se explica por si mesmo. Vocês encontrarão nesses primeiros meses setores incompletos, por conta da cansativa revisão de todo o material, da produção das fotos de esculturas e baixo-relevos e pelas próprias dificuldades técnicas dessa mídia, tão comum às pessoas, mas estranha a mim.


27.1.11

Escultor Escultura


Naqueles anos do velho primário, algumas vezes as crianças recebiam nacos de argila, eu sempre me aplicava na criação da mesma figura de cabeça redonda com braços e pernas estirados. Recordo-me do quanto me incomodava a fragilidade do barro que invariavelmente rachava e se desmilinguia ao secar. Pois então, pensava comigo, com minha cabecinha infantil: pra que fazer olhos, boca, nariz e orelhas num boneco que vai acabar?

Aos dezesseis anos, trabalhei como contínuo na fábrica de vidros em que meu pai era operário. De lá, trouxe um dia para casa um pedaço de argila e modelei um menino maciço, com uns trinta centímetros de altura, cuja expressividade chamou a atenção do meu pai – que veio a falecer pouco depois, minha mãe no ano seguinte. Assim, aos dezoito, estava órfão. A turma da fábrica me ajudou, ensinaram-me o bê-á-bá do vidro e me colocaram para fazer as bolas para sopro. Eu era jeitoso e gostava de brincar com a cana no forno, e lembro de ter moldado no vidro uma pequena figura de homem cabisbaixo bastante elogiada pelos colegas, com a qual presenteei um namorado. Porém, desde lá, meu negócio não era o vidro mas o barro. Sempre que podia, levava mais um naco de terra pra casa, que sobrepunha àquela mesma imagem primeira do menino, de forma que, obviamente, a escultura crescia e engordava com o tempo.

Jamais pude saber se minha figura racharia caso secasse – o que seria provável –, justamente porque por toda a vida a mantive coberta por plásticos, conservando assim a umidade para as devidas alterações e adventos de novas camadas. Talvez essa forma lenta e contínua de construí-la tenha sido responsável por estruturar firmemente o volume em pé, uma vez que o barro interno envelhecido, mesmo retendo certo padrão de umidade, era mais rígido. Eu tinha vinte e dois anos quando a escultura atingiu seu tamanho definitivo, um metro e setenta e três – exatamente a minha altura.

Trabalhava todos os dias após o jantar, mesmo que o cansaço me permitisse apenas um retoque numa sobrancelha ou unha do pé. Mas em geral, ao contrário, dedicava-me muitas horas à obra, num esforço exaustivo, algumas vezes dedicado a uma região somente do corpo, outras reformulando inteira a figura à procura de uma expressão específica. Nessa primeira fase da vida mudava demasiado a peça, imprimia nela movimentos desnecessários, próprios da juventude; ora ela andava a passo largo, ora voltava-se pra trás, ora exibia-se altiva, ora contorcia-se angustiada. Nem a sexualidade se definia; podia descambar num curto tempo de um feminino lânguido para uma masculinidade atlética; o olhar era cada dia um, do introspectivo ao pernóstico ao ingênuo ao contemplativo... enquanto a boca dizia outra coisa: tensão, sensualidade, suplício... Os braços e, principalmente, as mãos: quantos gestos, quantas dúvidas? Enfim, descrevo aqui poucos exemplos para que se pesem as inúmeras possibilidades e combinações por que passei na busca obsessiva de uma imagem desconhecida, sentindo a todo instante e durante toda a vida a iminência de encontrá-la. E reparem: restringi-me aos aspectos gestuais do meu homem, nenhuma palavra até aqui quanto ao estilo – esta luta, sim, meu labirinto infernal.

O estilo. Ainda quero preparar melhor a questão. Contar antes sobre um momento crucial no meu desenvolvimento como escultor, momento este que nunca cheguei a avaliar se me trouxe o bem ou mal, mas que certamente causou um considerável atraso da obra. Sou pobre, com formação pobre, passaria muito bem sem nenhum contato com conteúdos históricos-culturais. Fiz bem? Foi pura curiosidade. E perdi a inocência. Ouvi propagandas de uma tal megaexposição num tal MASP de um tal Rodin e fui, quis ver, visitei-a por não sei quantos domingos, e decerto abriu minha cabeça como também travou meu coração. Pior: desde esse dia, nos finais de semana, acostumei a frequentar museus, igrejas, praças, galerias, onde quer que soubesse haver esculturas de bons ou maus artistas (nunca pude diferenciá-los satisfatoriamente). A cada experiência, retornava a meu quarto tomado por estranhos impulsos e remodelava minha imagem que se perdia cada vez mais. Era um caminho sem volta; passei a frequentar bibliotecas municipais e a devorar livros de artes, a comprar fascículos do gênero em bancas de revistas. Ganhei um livro de Michelângelo de um namorado que trabalhava numa livraria. Justo Michelângelo... razão de estragos profundos no meu frágil ser de barro.

Quantos anos perdi nessas divagações? Dez, vinte? O que ganhei? Dúvidas. Meu homem passou a receber uma pele lisa, músculos protuberantes, um cone feito cabeça, um cilindro feito corpo, ou pior – o meu extremo –, um ano reduzido a uma massa disforme, um colosso de barro sem pé nem cabeça, a coisa em si, erguida, ao natural. Se é verdade que na vida nunca me senti seguro da minha arte, entre os trinta e quarenta anos estive completamente perdido. Saí dessa obscuridade de forma inesperada e banal: um estudante de enfermagem, numa madrugada, ao lhe mostrar a obra e relatar as angústias cotidianas, disse-me algo simplório como esqueça esses artistas, siga a tua intuição. O rapaz não atinou o bem que me fez.

Nesse meio tempo havia definido ao menos a postura que viria a se manter inalterada até o final, exceto pela curvatura dos ombros adquirida com o passar dos tempos: um homem em pé, com o peso dividido entre as duas pernas (antes ele vivia a pender de um lado para o outro), com os braços naturalmente soltos – mas não largados – e a cabeça inclinada para baixo, como olhasse o chão, mas não rente aos pés.

Pois agora, o estilo.

A expressão pode existir numa arte realista, estilizada ou abstrata – a questão não é essa; o problema do artista é encontrar o ponto entre o acúmulo e a escassez. No limiar prolixo, quando atingia uma fiel exatidão de realizações anatômicas – músculos, veias, rugas, cabelos, etc. –, em devida harmonia com o conteúdo evidente da obra (que não trata de um homem genérico, ideal, grego, mas de um homem, um único, comum, confuso, solitário, perdido, tímido – e esse homem é óbvio que sou eu, eu, eu!), bem, no momento em que alcançava essa perfeição figurativa, via a obra então empalidecer, morrer, virar estátua de cemitério. E a tentativa desesperada de lhe resgatar a alma através do acabamento sempre foi absolutamente vã; corrigir detalhes é o mesmo que maquiar cadáver – a obra morre assim que toma o caminho errado, para grande decepção do artista. (Apesar de ter passado a vida construindo e destruindo a escultura, cada vez foi doloroso, exaustivo, e pagava com a saúde). Como reação à frustração, a tendência era partir para o contrário, a síntese: uma figura lisa, desprovida de artesanatos, de adornos, simplesmente essência, ainda que mantidas as relações e proporção. E novo abismo diante da frieza do resultado. Entre os extremos, o que colocar, o que retirar? Meu Deus, passei o melhor da minha vida em busca da medida, sempre pecando para menos e mais.

Entendi na maturidade que o próprio princípio estava incompleto, ou mesmo equivocado; a verdade da obra exige uma deformação e uma desproporção. A questão – e já então eu me aproximava – é também quantitativa: quanto? Alongo em dois centímetros os braços? Diminuo a cabeça? Elimino os olhos? A conquista certamente é fruto de acertos e erros, eu sei, sabia, experimentei muito. Mas chegaria a um fim? Ao tentar explicar aqui o sacrifício que a obra me exigiu, acabo distinguindo didaticamente as forças envolvidas, descrevendo o desenvolvimento consciente, compreendido anos mais tarde, em detrimento dos impulsos e acasos, os maiores responsáveis pelas descobertas; pôr, retirar, alongar, definir, é claro que tudo vinha simultaneamente na criação. Ali no quarto. Minha vida num triângulo formado pela escultura, o espelho e o artista nu.

Nunca galguei posição mais alta na fábrica por não ter me empenhado a contento. Também não fui mandado embora, primeiro por cumprir as obrigações com disciplina e lealdade, segundo pela generosidade do jovem patrão, filho do falecido patrão, que me colocou, depois de vinte anos na empresa, na função de almoxarife. Esse deslocamento foi consequência de uma debilidade, já que meus olhos, em contínuo contato com a luz do forno, perdera a capacidade de distinguir nuanças no acabamento dos vidros. Essa vista castigada pelo fogo propiciou de algum modo a aproximação definitiva com meu estilo, uma vez que a modelagem passou a se guiar mais pelo tátil que pela visão.

Já dei a obra por encerrada inúmeras vezes desde a minha juventude, mas naquele momento, chegando aos sessenta, quase nada podia acrescentar ou retirar. Preciso admitir que tinha ficado bom – quando a gente envelhece tolera com facilidade os limites do ser. Dali a obra não passava. Estava bonito meu homem nu, soturno, melancólico, cansado e digno. Digno de uma vida, foi a minha conclusão. Meu temor passou a ser vê-lo secar, perder volume com a desidratação, modificar linhas bastante sutis, além da terrível mudança da cor do barro – não podia concebê-lo num bege desbotado. E a possibilidade de advirem rachaduras? Se alguém pensa que o melhor seria queimá-lo de vez num forno de cerâmica, ou transformá-lo num bronze ou algo semelhante, repito que não suportaria nenhuma alteração e, além disso, dinheiro não teria sequer para o transporte da peça para uma oficina especializada – eu não passava de um operário aposentado. Mantinha-o dentro do velho plástico.

Se nasci para criar, não sabia o que fazer com minha criação depois de pronta. Pensava seriamente em morrer. Mas também não queria isso, apenas deixar de sofrer pela iminente deterioração da obra. Era esse o vivo dilema daqueles dias, quando levei num domingo um rapaz pra casa. Sempre tive satisfação em mostrar aos garotos o meu verdadeiro homem, foram eles o meu público. Bebi muito naquela noite, perdi a noção dos acontecimentos, não sei se o magoei, não entendi o motivo: o rapaz me passou uma navalhada, acordei amordaçado e sangrando, preso ao pé da minha obra. Acorrentado. A corrente atava minhas mãos às costas e dava voltas entre as pernas da figura – mais me mexesse, mais a machucava. Por quê? Deve ter roubado ninharias, imaginei. Se eu tentasse sair dali, quebrava a escultura. E não se tratava de destruir as pernas, mas de desmilingui-la inteira. Derrubar o homem – podia? Como o rapaz pode conceber tal estratagema? Minha barriga estava aberta, nem sei se teria força para arrebentar o barro.

Sonhava com o forno da fábrica, somente sonhava com o fogo, a luz e o calor do forno. Doía lento, queimava. Sempre o mesmo sonho: o fogo e a luz ofuscante dentro do forno.

Ainda estava vivo quando os bombeiros me retiraram, pude sentir que me arrancaram sem o menor cuidado com o outro.



Pastel seco (23,5x30,5 cm)


Um comentário:

Anônimo disse...

Conto e imagem: incandescentes!