Nessa página de vidro pretendo simplesmente fazer caber a minha vida. Talvez falte, talvez sobre espaço, conforme o tamanho da vida em questão. É claro, estou chamando de vida o restrito departamento do trabalho. Mas a palavra cabe, se o trabalho tiver sido realizado com profundo amor. Chamamos um filho, algumas vezes, de minha vida. Talvez a produção artística tenha uma dimensão semelhante, por pobre que seja; a obra nasce de um estreito relacionamento com um Outro que reside dentro de nós, e é grande o esforço de gestação. Se o fruto não servir pra nada, a culpa não é dele, nem do autor, nem do Outro; foi com amor e esforço também que a natureza criou alguns homens, vermes e cascalhos, que deixariam perplexo quem buscasse neles um sentido de existência.

Dentre as qualidades dessa página de vidro, destaco sua transparência. A luz aqui pode entrar e sair, ser vista de frente – por mim – ou por trás – onde estão vocês. No salão informal desse espelho vazado, todos convivem de livre e espontânea vontade. Um trabalho apreciado com tal intimidade e por tantos lados se aproxima de sua razão de ser.

A página inicial não trará novidades da semana, como costuma acontecer nos verdadeiros blogs, mas conteúdos que semanalmente espero dispor em destaque, retirados dos livros e desenhos organizados no interior do blog. Poucos gostam de ler tantos contos ou poemas ou peças, ou ver tantas imagens; nessa página primeira, a maioria dos visitantes poderá ter um panorama do meu trabalho – e logo desistir, se for o caso. Portanto, somente nas páginas internas se encontrará a totalidade daquilo que quero expor.

De resto, o blog se explica por si mesmo. Vocês encontrarão nesses primeiros meses setores incompletos, por conta da cansativa revisão de todo o material, da produção das fotos de esculturas e baixo-relevos e pelas próprias dificuldades técnicas dessa mídia, tão comum às pessoas, mas estranha a mim.


15.3.11

Didi


Dói a alma deste trouxa pai de uma menina
Exilado do mundo onde ela caminha...

Homônimo meu,
Gepeto fez um filho de fantasia e pediu a Deus
Que o tornasse verdadeiro, não deu outra:
Um espírito de pau humano tão mundano
Quanto minha filha roda viva nesse parque prolixo
Esquizofrênico e promíscuo, repleto de vácuos
De luzes, ilusões, velocidades, estandartes
Que devoram qualquer espírito de uma vida de verdade...

Homônimo meu,
Josef K. quis desmascarar o mundo, se fudeu
E mereceu seu veredicto, eu não: renuncio,
Fica o dito pelo não dito, e ainda digo
Que o céu din-gon-bel sempre aceso é bonito
E a terra sem sombras de dúvidas é mais bonita
E do alto do meu monte de oliveiras assisto
Minha filha (suave morena) correndo
Entre os achados e perdidos do mundo
Mas do mundo mundo
Não desse meu mundo atrás do mundo,
Que para ela não existe esse meu
Onde divago literalmente por fora
Velho trouxa louco ímpio
Fabricante de verdades existenciais
Vendidas em frasquinhos de porta em porta:
"Ei dona, tua voz não é esta
Está mudada
Teus seios, tua boca, tua coxa peluda
Tudo em ti me leva a crer
Que tu não és a coisa tua..."
Mas as donas são naturalmente donas
Assim como minha filha vê na cara a cara
Enquanto eu só vejo lobo na cara do mundo
Pelo que sou aquele tipo de solitário
Prepotente, réu confesso, inocente inútil
Perigosamente solto por aí no mundo mundo...

Mas não tão só
Não tão só quanto penso que sou pelo que sinto
Agora, nesse poema
Pois quando ela passa por mim cantando uma canção
E a atenção com que para pra ouvir este escaravelho
E o salva da baleia
Fictícia para ela, pra mim tão verdadeira...
Tão gelado o seu ventre...
Tão fugaz o amigo Cleo...
Gepeto procurando o filho perdido
Que o salva do mundo cruel.


Guache (29,5x21 cm)

3 comentários:

bia reinach disse...

Nossa Zé! NOSSA!!!
Irmano-me a você...muitas e muitas vezes neste poema desabafo-descoberta. Que lobos são estes que transvertem o mundo? Cadê a simplicidade de simplesmente ser?
beijinho,
bia

tati disse...

uau zé. loucura! forte. atê doeu

Didi disse...

Didi!