Premonição
“Quando saíres da Pão & Cia num dia chuvoso, e ouvires D. Ivone Lara cantando “Sonho Meu”, passará rente a ti uma falsa loira: siga-a” – foi a frase taxativa que em mim ecoou ao fim de um sonho confuso. Naquele dia, tive receio de almoçar na padaria, porém o hábito se impôs; e nenhuma moça passou, nenhuma música tocou e o sol batia a pino. A enigmática mensagem permaneceu viva no decorrer da semana, a ponto de me fazer trocar o local da refeição num dia de garoa contínua. Mas por que havia de temer? O sonho era certamente a fantasia da minha esperança de encontrar alguém por acaso e, se fosse premonitório, pra que fugir? Um mês bastou para eu esquecer a questão.
Abri meu guarda-chuva e saí da padaria debaixo de um chuvisco, quando o som de um carro que manobrava em frente tocava “Sonho Meu”, na interpretação da autora, e, no mesmo instante em que sentia um calafrio, uma loira quase me atropela, estabanada com a sua sombrinha. Minha hesitação foi o suficiente para ela se adiantar trinta metros. Comecei a perseguição. Três quarteirões acima, a moça entrou numa rua sem movimento. Mal havia reparado em seu rosto. O coração batia, as pernas bambeavam, mas não podia deixar de obedecer a um destino tão contundente. Ela olhou para trás e acelerou o passo. Nova esquina, novo olhar – que a fez atravessar apressadamente a rua. Eu a perseguia sem escrúpulos, minha convicção vinha das esferas do além. Apenas obedecia.
Entrou correndo num sobradinho, toquei em seguida a campainha. Pelo que pude observar à distância, não era a mulher que eu desejava: baixinha, peituda, e aqueles cabelos tingidos, nada fazia meu tipo, e ainda vestia jeans, o que pra mim é traje de vaqueira. Morava sozinha, decerto, ou quem sabe com a mãe. Imaginei uma mãe cega, não sei por quê, dependente de sua única filha que se sacrificaria para... Mas quem abriu a porta violentamente foi um brutamontes meio alemão, que partiu pra cima de mim inquirindo-me ou ofendendo-me – eu nada entendia; minhas pernas arriaram de vez, a voz saía fraquinha e oscilante: “desculpe, é que tive um sonho que me dizia para seguir... a loira que passasse pela padaria... se chovesse... ao som da canção...”. Não completei. Foi uma porrada na cara sem condescendência e vários chutes no meu corpo estirado na calçada. Mais tarde, alguém me ergueu e me levou para uma varanda, onde recebi os primeiros socorros.
Não assimilei o que havia se passado; levei uma surra, dias de recuperação, dívidas pelo tratamento dentário – e um aparelho na boca até hoje. Não sei que relação tracei entre Deus e sonhos, que passei a ter raiva do primeiro. Então, quando a vida aos poucos se reconstruía, a moça entrou na padaria. Num surto de raiva, parti em sua direção e ela, assustada, espremeu-se entre as cadeiras da mesa. Antes que berrasse, perguntei diretamente: “por que fez isso comigo?”, e ela, ato contínuo, “por que me persegue?”. Minha cara deve ter revelado a ela meu bom coração, pois aos poucos nos acalmamos e eu pude explicar-lhe a história do sonho e a sua estúpida consequência. Ao fim, estávamos acomodados frente a frente.
– Talvez teu sonho tivesse o sentido de me ajudar. Depois daquele dia, consegui me separar. Não que eu achasse errado ele ter te expulsado, mas não daquele jeito. Era muito violento. Batia em todo o mundo, um bruto, inclusive abusava da minha boa vontade.
Enquanto falava, eu reconsiderava a impressão inicial de seus traços. Agora achava-a graciosa, com um jeito alegre e a voz cheia de sensualidade. O sonho estaria ainda valendo?
– Tudo bem, mas eu não posso ter servido apenas como instrumento de transformação da sua...
– Por que não? A vida de todos nós está tão entrelaçada... existe um inconsciente coletivo...
Era inteligente. O sonho estava vivo.
– ...e você me ajudou a encontrar o cara certo, um cara que tem a medida...
Já tinha outro namorado. Via-me novamente às voltas com o mistério: o que essa mulher tem a ver comigo?
Combinamos almoçar ali mesmo no dia seguinte, e assim por diante, três a quatro vezes por semana ¬– éramos agora íntimos. Precisava ter paciência, seu caso recente era passageiro e ela demonstrava evidente afeição por mim. Aos poucos, não escondíamos nada mais um do outro (exceto, de minha parte, a intensidade quase incontrolável da paixão) e foi assim que fiquei ciente de que o namorado ciumento andava desconfiando dos almoços reiterados na padaria, enquanto ele pegava no trabalho. Um dia ela não apareceu, em seu lugar um cara cresceu na minha frente sem fazer qualquer cerimônia; primeiro, um murro me lançou estatelado no chão, em seguida recebi o impacto da minha própria cadeira cativa, cadeira esta de tubo e chapa, que me rasgou a barriga e, enfim, ainda tive o braço quebrado, dentre outros estragos não maiores porque o demônio foi contido pelos clientes e servidores amigos. O estúpido foi pra delegacia assinar papéis, eu para o hospital. Lá, recebi a visita da moça. Disse-me que não tinha palavras para se desculpar, que preferia consolar-me com suas recentes decisões, quais eram: já havia se separado e que, se eu ainda a quisesse, estaria me esperando, que agora via o quanto me amava e desejava morar comigo...
O sonho ressuscitava das cinzas. Só não me alertara quanto ao custo do destino.
Nosso primeiro sexo justificou as duas surras. O segundo e o terceiro ainda empolgaram. Ela trouxe algumas mudas de roupa para minha casa, porém não se entregava plenamente. Eu queria mais, bem mais. Ela dizia “devagar”, e no quarto sexo já parecia distante. Presenteei-a com um anel de algum valor que a deixou encantada, e então me ofereceu o quinto com grande fervor. Este foi o último: o quinto. Eu estava por cima, tomado, na minha, quando ela, suada, de olhos fechadinhos, cheia de tesão, pediu-me para bater. “O quê?” “Me bate, bate!”. “Não”, gaguejei. “Me bate, porra!” “Não... não gosto disso, tá louca...” Ela rugia, uma fera, eu dentro dela parei, ela se debatia, me aplicava uns tapas e repetia compulsiva “me bate, me bate, merda!” Como eu paralisara, empurrou-me, pulou da cama, pôs a roupa, catou as coisas e foi embora.
O absurdo, acredite quem quiser, ainda estava por acontecer, semanas depois, quando me refazia das grosserias do destino. Eu não entendo de probabilidade. Não sei calcular a chance de tocar na minha padaria, num dia chuvoso, uma canção que não foi propriamente um sucesso nem em sua época, e ainda na voz de D. Ivone Lara, e passar uma loira falsa na minha frente – tudo como foi predito. Contudo, ocorrer o mesmo acaso premonitório duas vezes, me parece mais impossível que sortear a mesma estrela no firmamento. Pois então vocês imaginam o que vou contar. Desta vez ouvi “Sonho Meu” na televisão da padaria. Sorri. Chovia, como era de se esperar. Armei o guarda-chuva para sair, certo que uma loira passaria. Passou. Uma diferença: esta sorriu ligeiramente pra mim. E seguiu com passos lentos pela calçada, como se me esperasse – eu a acompanhei com os olhos. Adiante, espiou atrás, pra mim. Não sei qual a probabilidade desse fenômeno duplo, mas, sem pestanejar, parti sozinho em direção contrária.
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Bico de pena e grafite (24x31,5 cm) |
2 comentários:
Ai Zezé... que delícia rir assim desbragadamente nesta madrugada de sábado! Que delícia!
Muito interessante o seu conto! Achei ótimo o fluxo dos acontecimentos e a escolha das palavras. Grande abraço! espero passar aqui sempre.
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