Nessa página de vidro pretendo simplesmente fazer caber a minha vida. Talvez falte, talvez sobre espaço, conforme o tamanho da vida em questão. É claro, estou chamando de vida o restrito departamento do trabalho. Mas a palavra cabe, se o trabalho tiver sido realizado com profundo amor. Chamamos um filho, algumas vezes, de minha vida. Talvez a produção artística tenha uma dimensão semelhante, por pobre que seja; a obra nasce de um estreito relacionamento com um Outro que reside dentro de nós, e é grande o esforço de gestação. Se o fruto não servir pra nada, a culpa não é dele, nem do autor, nem do Outro; foi com amor e esforço também que a natureza criou alguns homens, vermes e cascalhos, que deixariam perplexo quem buscasse neles um sentido de existência.

Dentre as qualidades dessa página de vidro, destaco sua transparência. A luz aqui pode entrar e sair, ser vista de frente – por mim – ou por trás – onde estão vocês. No salão informal desse espelho vazado, todos convivem de livre e espontânea vontade. Um trabalho apreciado com tal intimidade e por tantos lados se aproxima de sua razão de ser.

A página inicial não trará novidades da semana, como costuma acontecer nos verdadeiros blogs, mas conteúdos que semanalmente espero dispor em destaque, retirados dos livros e desenhos organizados no interior do blog. Poucos gostam de ler tantos contos ou poemas ou peças, ou ver tantas imagens; nessa página primeira, a maioria dos visitantes poderá ter um panorama do meu trabalho – e logo desistir, se for o caso. Portanto, somente nas páginas internas se encontrará a totalidade daquilo que quero expor.

De resto, o blog se explica por si mesmo. Vocês encontrarão nesses primeiros meses setores incompletos, por conta da cansativa revisão de todo o material, da produção das fotos de esculturas e baixo-relevos e pelas próprias dificuldades técnicas dessa mídia, tão comum às pessoas, mas estranha a mim.


5.8.11

A balada da coragem (ou covardia)



Atrás de sua sombra
ele sempre inicia o passeio
pela rua central da cidade
onde o comércio ancestral espalha-se
pelas transversais (escolhe uma arbitrária)
e aos poucos, como de costume
resume-se a pequenas lojas
onde o próprio dono atende
e o freguês sabe o nome do dono.

A cada paralela que atravessa
pressente a proximidade do sonho, pois acredita
que no ponto de fuga da perspectiva
lá onde um fragmento de paisagem se divisa
encontrará o novo.
Mas ele sabe por outras viagens
que revive a mesma ilusão
que jamais alcançará o mundo
– de renascimento, beleza,
esperança, revelação, harmonia,
graça, compreensão.
Então pondera: continuará apenas
até a próxima paralela.

Porém, tudo se repete, de sonho e de fato
nesse velho novo quarteirão;
diminui o movimento dos carros
predomina casas antigas
com cachorro e sem cachorro
afora a locadora de filmes,
o salão de beleza, o lava-jato,
quando então chega ao objetivo:
outra paralela similar à primeira
e às outras e às memoriais
– e ali aquele renascimento ainda longínquo.

Mesmo assim, renova consigo o contrato
até a próxima – não mais! – e segue
sentindo agora um forte aperto
pois em relação ao centro
afasta-se demais.

Enfim, na última esquina
avista, como tantas vezes
naquele fragmento da paisagem
o singelo portal, logo ali.
Hesita, mas precisa recuar
– continuar não tem fim.


Carimbo (42x37 cm)

Um comentário:

laura disse...

Oi Zé, Te achei numa busca de carimbos. Logo que vi a imagem reconheci que era sua. Linda! beijo, Laura