Atrás de sua sombra
ele sempre inicia o passeio
pela rua central da cidade
onde o comércio ancestral espalha-se
pelas transversais (escolhe uma arbitrária)
e aos poucos, como de costume
resume-se a pequenas lojas
onde o próprio dono atende
e o freguês sabe o nome do dono.
A cada paralela que atravessa
pressente a proximidade do sonho, pois acredita
que no ponto de fuga da perspectiva
lá onde um fragmento de paisagem se divisa
encontrará o novo.
Mas ele sabe por outras viagens
que revive a mesma ilusão
que jamais alcançará o mundo
– de renascimento, beleza,
esperança, revelação, harmonia,
graça, compreensão.
Então pondera: continuará apenas
até a próxima paralela.
Porém, tudo se repete, de sonho e de fato
nesse velho novo quarteirão;
diminui o movimento dos carros
predomina casas antigas
com cachorro e sem cachorro
afora a locadora de filmes,
o salão de beleza, o lava-jato,
quando então chega ao objetivo:
outra paralela similar à primeira
e às outras e às memoriais
– e ali aquele renascimento ainda longínquo.
Mesmo assim, renova consigo o contrato
até a próxima – não mais! – e segue
sentindo agora um forte aperto
pois em relação ao centro
afasta-se demais.
Enfim, na última esquina
avista, como tantas vezes
naquele fragmento da paisagem
o singelo portal, logo ali.
Hesita, mas precisa recuar
– continuar não tem fim.
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| Carimbo (42x37 cm) |

Um comentário:
Oi Zé, Te achei numa busca de carimbos. Logo que vi a imagem reconheci que era sua. Linda! beijo, Laura
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