Nessa página de vidro pretendo simplesmente fazer caber a minha vida. Talvez falte, talvez sobre espaço, conforme o tamanho da vida em questão. É claro, estou chamando de vida o restrito departamento do trabalho. Mas a palavra cabe, se o trabalho tiver sido realizado com profundo amor. Chamamos um filho, algumas vezes, de minha vida. Talvez a produção artística tenha uma dimensão semelhante, por pobre que seja; a obra nasce de um estreito relacionamento com um Outro que reside dentro de nós, e é grande o esforço de gestação. Se o fruto não servir pra nada, a culpa não é dele, nem do autor, nem do Outro; foi com amor e esforço também que a natureza criou alguns homens, vermes e cascalhos, que deixariam perplexo quem buscasse neles um sentido de existência.

Dentre as qualidades dessa página de vidro, destaco sua transparência. A luz aqui pode entrar e sair, ser vista de frente – por mim – ou por trás – onde estão vocês. No salão informal desse espelho vazado, todos convivem de livre e espontânea vontade. Um trabalho apreciado com tal intimidade e por tantos lados se aproxima de sua razão de ser.

A página inicial não trará novidades da semana, como costuma acontecer nos verdadeiros blogs, mas conteúdos que semanalmente espero dispor em destaque, retirados dos livros e desenhos organizados no interior do blog. Poucos gostam de ler tantos contos ou poemas ou peças, ou ver tantas imagens; nessa página primeira, a maioria dos visitantes poderá ter um panorama do meu trabalho – e logo desistir, se for o caso. Portanto, somente nas páginas internas se encontrará a totalidade daquilo que quero expor.

De resto, o blog se explica por si mesmo. Vocês encontrarão nesses primeiros meses setores incompletos, por conta da cansativa revisão de todo o material, da produção das fotos de esculturas e baixo-relevos e pelas próprias dificuldades técnicas dessa mídia, tão comum às pessoas, mas estranha a mim.


18.8.11

O Coração da Pedra


A ideia

Quando bate o coração da pedra
a pedra desperta
o mundo de dentro sente.

O coração da pedra quando bate
o mundo de fora sabe
o que significa.

Porque é um coração de pedra
que bate
quando bate o seu coração.

E não há nada mais evidente
que um coração de pedra
batendo simplesmente.

Esse coração:
como um olho que abre
de um sono profundo.

Esse olho:
como uma luz que nasce
para renovar o mundo.

O coração de pedra quando bate
abre o olho do início
de um início sem fim.

*

O coração do homem quando bate
só adormece
as pedras do mundo.

Pedras dormindo
são pedras propriamente ditas
pedras frias.

E o sentido da vida então
são pedras propriamente frias
soltas pelo chão.

O coração da pedra quando bate
desperta a pedra
do coração do homem.

Para sempre será
este momento
dos corações de pedra batendo.

A batida desse duplo coração
ecoa no longínquo
quer queira quer não.

O eco dessa batida
comove
as pedras dos corações dos homens.


A experiência


Ninguém sabe o que bate
de repente
o coração da pedra.

E quem busca saber não sabe
que a busca
só adormece o coração da pedra.

Cheguei a pensar que a sinceridade
absoluta
tocasse o seu coração.

Depois cri em sacrifícios
trabalho
amor.

A pedra dormindo sorria
do meu debate
em vão.

Tentei pelo vazio
zen
e nada.

Num sonho, sabendo que me escaparia
ouvi o coração da pedra
eu vi o que era.

*

Então fui eu que deixei
a pedra
com a minha interrogação.

E parti sozinho
(como quem desiste de tudo)
apenas com meu coração.

Quando cheguei ao fim
meu ódio deu um murro
num muro de pedra.

Um murro numa pedra
é duro
e fere até a pedra.

A lágrima da pedra ferida
despertou o coração da pedra
do meu coração.

Meu coração desperto pedia perdão
por desejar à força
aquele coração.

Nesse dia eu aprendi tudo
por exemplo

a esperar em vão.



Lápis de cor (29x21 cm)

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