Nessa página de vidro pretendo simplesmente fazer caber a minha vida. Talvez falte, talvez sobre espaço, conforme o tamanho da vida em questão. É claro, estou chamando de vida o restrito departamento do trabalho. Mas a palavra cabe, se o trabalho tiver sido realizado com profundo amor. Chamamos um filho, algumas vezes, de minha vida. Talvez a produção artística tenha uma dimensão semelhante, por pobre que seja; a obra nasce de um estreito relacionamento com um Outro que reside dentro de nós, e é grande o esforço de gestação. Se o fruto não servir pra nada, a culpa não é dele, nem do autor, nem do Outro; foi com amor e esforço também que a natureza criou alguns homens, vermes e cascalhos, que deixariam perplexo quem buscasse neles um sentido de existência.

Dentre as qualidades dessa página de vidro, destaco sua transparência. A luz aqui pode entrar e sair, ser vista de frente – por mim – ou por trás – onde estão vocês. No salão informal desse espelho vazado, todos convivem de livre e espontânea vontade. Um trabalho apreciado com tal intimidade e por tantos lados se aproxima de sua razão de ser.

A página inicial não trará novidades da semana, como costuma acontecer nos verdadeiros blogs, mas conteúdos que semanalmente espero dispor em destaque, retirados dos livros e desenhos organizados no interior do blog. Poucos gostam de ler tantos contos ou poemas ou peças, ou ver tantas imagens; nessa página primeira, a maioria dos visitantes poderá ter um panorama do meu trabalho – e logo desistir, se for o caso. Portanto, somente nas páginas internas se encontrará a totalidade daquilo que quero expor.

De resto, o blog se explica por si mesmo. Vocês encontrarão nesses primeiros meses setores incompletos, por conta da cansativa revisão de todo o material, da produção das fotos de esculturas e baixo-relevos e pelas próprias dificuldades técnicas dessa mídia, tão comum às pessoas, mas estranha a mim.


13.8.11


Vulcão


Na paisagem há uma imagem de homem
Refletida na vidraça embaçada
A forma inversa tem nome
No verso perdeu sua graça.

Na paisagem há um rosto que fuma
O homem tem gosto de homem
A diferença entre dois é uma
Poeira que voa mais leve.

Na paisagem tudo é evidente
Como homens construindo viaduto
Nas colunas de concreto aparente
O terror de um abalo súbito.

Na paisagem o céu está limpo
Escurece então rapidamente
Quando toca a campainha
A solidão vem de repente.

Na paisagem uma mosca zumbindo
Conduz às dunas da lembrança
Foi na piscina de um clube
Que quase afogou uma criança.

Na paisagem rola uma lenda
Que lagoa é cheia de mágoa
Quem passa estranha a força
Da superfície parada da água.

Na paisagem a gota deságua
Uma barragem muito antiga
Foi a lágrima de um olho
Que viu no fim a ruína.

Na paisagem há um livro aberto
Numa estampa do monte Fuji
Quem vê se remete ao Japão
Num vulcão longe de si.


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