Nessa página de vidro pretendo simplesmente fazer caber a minha vida. Talvez falte, talvez sobre espaço, conforme o tamanho da vida em questão. É claro, estou chamando de vida o restrito departamento do trabalho. Mas a palavra cabe, se o trabalho tiver sido realizado com profundo amor. Chamamos um filho, algumas vezes, de minha vida. Talvez a produção artística tenha uma dimensão semelhante, por pobre que seja; a obra nasce de um estreito relacionamento com um Outro que reside dentro de nós, e é grande o esforço de gestação. Se o fruto não servir pra nada, a culpa não é dele, nem do autor, nem do Outro; foi com amor e esforço também que a natureza criou alguns homens, vermes e cascalhos, que deixariam perplexo quem buscasse neles um sentido de existência.

Dentre as qualidades dessa página de vidro, destaco sua transparência. A luz aqui pode entrar e sair, ser vista de frente – por mim – ou por trás – onde estão vocês. No salão informal desse espelho vazado, todos convivem de livre e espontânea vontade. Um trabalho apreciado com tal intimidade e por tantos lados se aproxima de sua razão de ser.

A página inicial não trará novidades da semana, como costuma acontecer nos verdadeiros blogs, mas conteúdos que semanalmente espero dispor em destaque, retirados dos livros e desenhos organizados no interior do blog. Poucos gostam de ler tantos contos ou poemas ou peças, ou ver tantas imagens; nessa página primeira, a maioria dos visitantes poderá ter um panorama do meu trabalho – e logo desistir, se for o caso. Portanto, somente nas páginas internas se encontrará a totalidade daquilo que quero expor.

De resto, o blog se explica por si mesmo. Vocês encontrarão nesses primeiros meses setores incompletos, por conta da cansativa revisão de todo o material, da produção das fotos de esculturas e baixo-relevos e pelas próprias dificuldades técnicas dessa mídia, tão comum às pessoas, mas estranha a mim.


3.9.11

Umbigo Ubíquo
                                  
                                   ao Guto


Arainha que paira no ar
Você é uma grande vertigem
Suspensa por um fio transparente
Que sustenta teu corpo no meu teto
E sustenta meu teto em teu corpo.

Meu umbigo também me une
À minha mãe e ela a mães ubíquas
Em fios umbilicais também transparentes
Que tecem uma imensa teia concêntrica
Aparentemente inexistente.

Eu venho de um bárbaro barbudo e nojento
Eu venho de uma mongol bronca e peituda
Alguém um dia pagou uma prostituta
Alguém um dia despediu-se da amante
Somos todos fios de uma Mãe errante.

Esse sorriso leve e sereno que pensa ser seu
Você o deve a um marinheiro antuerpiano
Que o deve a um alcoólatra aristocrata russo
Que o deve a uma bela camponesa de pés no chão...
Ninguém jamais criou um gesto, um jeito, uma dicção.

Meu carinho, paciência, mau humor e sensibilidade
Não são meus, minha inteligência, cheiro, delicadeza
Não são meus, meu é a mistura, a opção que escolho
Meus são apenas a vontade e o sonho
E a frustração ou alegria pelo que se realiza.

Tudo o que tem nome no corpo e na alma
Foi herdado, nossos são o vazio, o olhar, o terror
A arquitetura azul do sonho de ser a desabar
E a se reerguer, nosso é o mistério de existirmos
Como um, como alguém, como um ente inominável.

Porém, justo no ponto em que alguém é alguém
Abdica-se do que se é para ser como os outros são
E se já não somos a matriz original que julgamos ser
Perdemo-nos mais ainda por temer vir-a-ser
O imprevisível sem nome que seríamos sem querer.



Guache e nanquim (23x30 cm)

2 comentários:

Tâmara Braga Ribeiro disse...

Oi divulguei no facebook do Imagem dos Povos e no meu o seu blog e alguns amigos ja entraram . Depois de uma olhada, algumas pessoas já
entraram e comentaram. : http://www.facebook.com/imagemdospovos

bj Tamara

Lua e Gonzalo disse...


Muito boa essa "Umbigo Ubíquo". É bom quando a poesia é algo que diz alguma coisa de fato e evita imagens abstratas.
abs, Paulo