ao Guto
Arainha que paira no ar
Você é uma grande vertigem
Suspensa por um fio transparente
Que sustenta teu corpo no meu teto
E sustenta meu teto em teu corpo.
Meu umbigo também me une
À minha mãe e ela a mães ubíquas
Em fios umbilicais também transparentes
Que tecem uma imensa teia concêntrica
Aparentemente inexistente.
Eu venho de um bárbaro barbudo e nojento
Eu venho de uma mongol bronca e peituda
Alguém um dia pagou uma prostituta
Alguém um dia despediu-se da amante
Somos todos fios de uma Mãe errante.
Esse sorriso leve e sereno que pensa ser seu
Você o deve a um marinheiro antuerpiano
Que o deve a um alcoólatra aristocrata russo
Que o deve a uma bela camponesa de pés no chão...
Ninguém jamais criou um gesto, um jeito, uma dicção.
Meu carinho, paciência, mau humor e sensibilidade
Não são meus, minha inteligência, cheiro, delicadeza
Não são meus, meu é a mistura, a opção que escolho
Meus são apenas a vontade e o sonho
E a frustração ou alegria pelo que se realiza.
Tudo o que tem nome no corpo e na alma
Foi herdado, nossos são o vazio, o olhar, o terror
A arquitetura azul do sonho de ser a desabar
E a se reerguer, nosso é o mistério de existirmos
Como um, como alguém, como um ente inominável.
Porém, justo no ponto em que alguém é alguém
Abdica-se do que se é para ser como os outros são
E se já não somos a matriz original que julgamos ser
Perdemo-nos mais ainda por temer vir-a-ser
O imprevisível sem nome que seríamos sem querer.
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| Guache e nanquim (23x30 cm) |

2 comentários:
Oi divulguei no facebook do Imagem dos Povos e no meu o seu blog e alguns amigos ja entraram . Depois de uma olhada, algumas pessoas já
entraram e comentaram. : http://www.facebook.com/imagemdospovos
bj Tamara
Zé
Muito boa essa "Umbigo Ubíquo". É bom quando a poesia é algo que diz alguma coisa de fato e evita imagens abstratas.
abs, Paulo
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