A Caminho da Tribo
O caminho pra tribo não é um caminho. Demorei a perceber. Sonho em chegar, por isso ando muito parado. É que recentemente entendi que andar com afinco raramente me fez sair do lugar, e que, parado como estou, pode ser que me aproxime. Isto porque o caminho que percorro não se assemelha necessariamente a uma estrada. E o meu tempo lamentavelmente não se afere no relógio. Por isso vivo em pleno impasse; antes eu agia com esforço e dedicação, o que me dava, ao menos, a sensação de progresso. Hoje nem sei se, sentado à beira do caminho, estou indo — existe a possibilidade de estar simplesmente parado. O que gera em mim um grande medo. Não tenho medo da morte, mas de desperdiçar a vida. Se não alcançar a tribo, que valor a vida tem? O velho caminho que se dissipou mas que ainda existe é uma estrada forrada por cascalhos ásperos e pontudos (razão do passo falso e hesitante), que corta uma paisagem monótona, basicamente formada por um enorme campo onde os animais pastam, as crianças brincam e os homens atiram. Existem nuanças, como amigos que me acompanham num trecho do percurso, passarinhos pousados na rede elétrica e variedades de flores do mato insistindo em ser belas, dentre outros detalhes. Sei que minha misantropia reduz a quase nada a diversidade dessa paisagem, mas não vejo motivo pra descrever as coisinhas.
Ora, já devem estar deduzindo que jamais chegarei à tribo, que a tribo é ilusão e tal, mas eu não duvido, minha certeza é absoluta e me acompanha desde sempre, mesmo que eu não saiba o que exatamente vou encontrar lá, nem mesmo o que é a tribo. Quanto a chegar, nenhuma dúvida. A tribo pode ser tantas coisas, que alguma coisa boa certamente será. Portanto, caminhar. Caminhar? Esta é a questão. Antes eu sabia o que fazer, agora não — desde que compreendi que aquela determinação em seguir não me conduzia à tribo nenhuma, ao contrário, até me desviava. Hoje eu sei que estou no caminho, mas, caminho? Perdi seu rastro...
Inveja eu tenho do caminho dos outros. Eles passam por mim marchando resolutamente pelas paralelas e transversais da minha estrada, uns nem me olham, outros são respeitosos, alguns conhecidos param para um café, mas sempre com pressa, sabem que cinco minutos, no ritmo desenfreado que se impõem, correspondem a 300, 400 metros de um avanço concreto, portanto não posso lhes pedir mais. A maioria já está de volta, conquistaram suas tribos há muito tempo e dirigem-se para uma nova (existem várias), eu sou modesto, desejo alcançar apenas a primeira, a primeira pra mim é o máximo que almejo. Peço unicamente que eles que não me descrevam experiência alguma, nada quero saber do que viram ou viveram ou ganharam na tribo, desejo um dia simplesmente receber a surpresa. Talvez, inclusive, a tribo seja somente isso: uma surpresa.
Os amigos não entendem a minha dificuldade. Criticam o meu caminhar trôpego sem considerar sobre o que eu caminho. Vêem tudo pelo ponto de vista de suas estradas, me aconselham um andar mais objetivo e a fazer check-ups com frequência, pois, pra eles, sem cuidar da saúde não se chega a lugar nenhum. Segundo repetem seguidamente, a maneira mais segura de se atingir uma tribo é com disciplina: cinco quilômetros de manhã, almoço, outros cinco à tarde, jantar leve, descanso, um bom sono, etc. etc. E que é perfeitamente plausível — eu que deixe de pudor — cortar caminho usando as estradas dos outros, principalmente em seguimentos mais intrincados... Imagine, usar estrada alheia... Meu irmão me disse que me emprestaria dinheiro para uma viagem direta de avião. Pronto. O grande drama resolvido em poucas horas. Respondi-lhe, depois de agradecer, que mais rápido que um avião seria nascer e morrer no ato. Ora, encurtar a vida...
Contava que passo por um período demasiadamente sentado nos montículos do caminho, mas não que me distraio jogando pedra nas pedras da estrada. De fato, uma perda de tempo... Seria bom que entendessem: esses cascalhos a que me referi são graúdos — cabem na palma de uma mão — e criados pela explosão do granito, portanto nada naturais. Antigamente, o asfalto das ruas era bem feito, sobrepondo-se camadas de cascalhos, do maior ao menor; por baixo, este cascalho que é a minha sina, depois os médios e por fim os cascalhinhos, aqueles grãozinhos, sobre o qual, após o trabalho de prensagem das máquinas, se espalhava o asfalto definitivo. Pois então, quando eu era criança, atirava um cascalhão de encontro às pilhas de cascalhos que os caminhões depositavam, buscando que o choque criasse uma faísca. Mas não tinha força suficiente. Os mais velhos conseguiam. Usavam da força, mas também o faziam com jeito; acertavam de quininha, e, plim! saía a faísca. A lembrança não é nítida, mas acho que acreditava que as faíscas pertenciam às pedras que as liberavam toda a vez que recebessem a batida certa... É com o que me divirto hoje em dia, mas não o tempo todo, eu me controlo, é claro. Arrancar faíscas das pedras... (Tem outra também; diante dos lagos, fazer a pedra pipocar na superfície da água...)
Desviei-me com essas reminiscências. Ou não, ou caminhei — eis um exemplo típico do meu dilema. Se fosse dada pra mim uma estrada nítida, teria certamente me desviado com essa narração irrelevante de tempos remotos. Porém, como não há caminho concreto, posso me distrair e me dispersar à vontade, inclusive escrever coisas desconexas, que estarei de qualquer modo me aproximando da tribo. Porra: desviar-me à vontade, ou somente mais ou menos, ou, ainda, um pouquinho? Perdi a medida da melhor conduta, daí meu medo de estar perdendo a vida, o que é diferente de estar perdido. Perdido eu tenho certeza de que estou. Perdido, mas talvez mais perto...
Quando a vida era uma estrada, somente as bifurcações então me afligiam. A cada uma, uma paulada. Contudo, eu caia, recuperava-me, recobrava a confiança e seguia até a próxima. No lugar em que hoje estou metido não existem mais bifurcações, a estrada é um espaço aberto com cascalhos que transparecem onde quer que eu pise, posso escolher qualquer direção, porque, se estou certo, todas elas me levam. No exato instante em que alguém me vê, esse espaço desmedido se configura numa estrada comum, e todos por isso imaginam que eu sou normal, que tenho uma estrada, que chegarei à minha tribo. (Pensam inclusive que já estou de volta, pois engano bem.) Mas, logo após a despedida, aquilo que em público se apresentava como uma boa reta cercada de pastos transforma-se novamente no imenso campo. Porém, digo pra mim, não se preocupe, velho; espaço aberto ou fechado são formas iguais, meu deserto de cascalhos também está rodeado pela paisagem, basta eu querer ou precisar ver. Assim, real ou virtualmente, existe um pasto aqui do lado, com as crianças, atiradores e as outras coisinhas.
Não tenho medo desses tiros. Podem me acertar, como já acertaram em pessoas próximas e distantes, estão aí, na real, só sabem fazer isso, agredir, humilhar, mas não me pegam. Deve ser arrogância de minha parte, mas não temo essa gente. Há quem me proteja. Isto é fé, evidente. Portanto, são duas fés: minha jornada não será interrompida por atiradores e alcançarei à tribo. Me preocupa a possibilidade de chegar lá exaurido a ponto de nem usufruir. Ultimamente, sinto as energias rebaixadas, as pernas, em especial, por conta dos cascalhos, doem, doem, razão de eu viver sentado, ou catando flores, ou fotografando passarinhos. Alguém me protege; viajo seguro de noite ou de dia. Porém, se há um protetor, e, portanto, sou por ele um escolhido, por que fez do meu caminho um caminho de pedregulhos? Noto as estradas dos outros; têm pedras, é verdade, mas imensas, redondas, funcionam como obstáculos que, como tais, uma vez contornados, oferecem a recompensa de um caminho contínuo de terra batida, cimento ou grama. Como qualquer um, também tenho que enfrentar esses obstáculos, é da vida, o que me incomoda e que reclamo é somente com o andar capenga através dos cascalhos, pois é de toda hora, a cada passo, sem trégua, sem perspectiva.
Quando penso em desistir (quantas vezes, quantas vezes!) encontro de repente uma seta apontando prum lado qualquer, onde leio: continue. Continue. Continue! Quem me protege deixa somente esse recado: continue. O cara tem senso de humor, pois, certa vez, desesperado com meu destino, roguei pra que ele me desse uma direção. Por aqui ou por ali? Respondeu-me seco: por aqui. Aqui aonde, se não especifiquei o que era aqui e ali...? Outra vez, novamente: estou perto ou longe da minha tribo? Ele disse: perto. Perto, que tempo é perto? Em escala humana ou transcendente...? Pois a vida continua passando e eu sempre estive perto...
Não quebrem meu sonho, não acabem com a minha certeza, a tribo existe, está logo além, não acredito em aqui agora, aqui é lugar nenhum, pasto, tiros, correria, pedras lascadas, desencontros, arbitrariedades... Minha certeza é absoluta. Não destruam meu único sentido: caminhar para o meu lugar. Eu não sei o que é a tribo, se glória, riqueza, harmonia, pode ser um pequeno tempo de paz, um dia que seja, mesmo o último dia, posso chegar lá já sem força, mas meus olhos poderão ver, e, se estiverem cegos, ouvirei — inconcebível uma tribo sem música —, porém, se também estiver surdo, sentirei a fresca, uma brisa específica no peito..., um ar puro que respirarei enfim, nesse possível grande final.
Um comentário:
Zé,
Me sinto também neste caminho errante, torto para a tribo. Identifiquei-me por inteira.
No sexto parágrafo está escrito:
"Desvie-me com essas reminiscências." não é, "desviei-me"?
Você tem postado com mais frequência, pensa que não percebi?
obrigada (presunçosa eu, não?)
bia
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