Nessa página de vidro pretendo simplesmente fazer caber a minha vida. Talvez falte, talvez sobre espaço, conforme o tamanho da vida em questão. É claro, estou chamando de vida o restrito departamento do trabalho. Mas a palavra cabe, se o trabalho tiver sido realizado com profundo amor. Chamamos um filho, algumas vezes, de minha vida. Talvez a produção artística tenha uma dimensão semelhante, por pobre que seja; a obra nasce de um estreito relacionamento com um Outro que reside dentro de nós, e é grande o esforço de gestação. Se o fruto não servir pra nada, a culpa não é dele, nem do autor, nem do Outro; foi com amor e esforço também que a natureza criou alguns homens, vermes e cascalhos, que deixariam perplexo quem buscasse neles um sentido de existência.
Dentre as qualidades dessa página de vidro, destaco sua transparência. A luz aqui pode entrar e sair, ser vista de frente – por mim – ou por trás – onde estão vocês. No salão informal desse espelho vazado, todos convivem de livre e espontânea vontade. Um trabalho apreciado com tal intimidade e por tantos lados se aproxima de sua razão de ser.
De resto, o blog se explica por si mesmo. Vocês encontrarão nesses primeiros meses setores incompletos, por conta da cansativa revisão de todo o material, da produção das fotos de esculturas e baixo-relevos e pelas próprias dificuldades técnicas dessa mídia, tão comum às pessoas, mas estranha a mim.
23.11.11
Contar tudo sem dizer nada... (Jh 2,34)
No espaço
Nenhum homem, uma cidade de mulheres
Invadi um pequeno quintal na beira do rio
A velha cozinha com seu relógio de carrilhão
Escondia-me nas trilhas do capim baldio
Admirando as belas teias da Araneae entre os vãos.
O corcunda tocava em meu pinto na nave da igreja
Saí sozinho do labirinto das dunas
Deitado na cama com meu rádio de pilha
À noite todos punham os colchões das ruas
Mães e filhas faziam balaios de palha.
Sofri numa escola cinza com janelas muito altas
Era linda a lagoa escura que quase me matou
Passei muitas horas num muro quebrado
Da mercearia e da própria rua nada restou
A cidade ignora um significado.
Solidão vivia em piscinas geométricas
Roubaram minhas figurinhas atrás da parede
Por ali entrei na floresta amazônica
A telepatia que se deu sabemos eu e ele
Com o rio ao lado repetindo sua crônica.
Na roda da máquina de costura dela
Meu mundo de fora cabia no campinho
Nas réstias do sol, o pó e o universo
Esculpia passarinho por passarinho
Para pôr a revoada em cima do berço.
Era um apartamento vazio de quatro quartos
Contei Meu Tio o Iauaretê pras minhas crianças
Sonhei com uma escada espiralada sem fim
Pobre querido ateliê cheio de esperança
Onde os coelhos comeram meu jasmim.
As andorinhas escureceram o dia mais cedo
Na varanda de trás contei dezessete balões
Foi uma benção, na nascente do São Francisco
A encanação era cantar todas as canções
Num palacete imperial quase ruído.
Dormi com ela na cama de seus pais
Que casa aquela! mulheres e morcegos
Hortênsias que põe seu ego pra fora
Bolacha de água e sal era nosso brinquedo
Quando demorava a passagem das horas.
E aquilo no céu era mesmo um tornado
As matracas acabaram com as flores do ipê
Andando e ouvindo o Jornal Nacional nas ruas
Havia dois vidros entre eu e meu bebê
Desde o começo ela foi prematura.
Naquele cubículo fui um grande pintor
Gozar na chuva, no perigo da mata
Desde então o pardal é meu amigo
Chique comer a tal truta defumada
Falando em comer, era uma vez um ovo cozido.
No Tempo
Quando vi, seus pêlos eram ruivos
O caminhão vinha na contramão
Me deram jogo de varetas e um mico no Natal
A gata era uma senhora uivando de tesão
Enquanto eu fazia tai-chi no quintal.
Godô atropelado pelo caminhão de gás
O pai dele me disse que eu tinha personalidade
A cena do urubu saindo da bunda do cavalo
Eu e ela curtimos toda a tempestade
Deitados no chão da casa da Amaro.
Gritei: pai, to se sentindo mal...
Quando nasceu era pele e osso
Deus não deixava, então fomos embora
Meu primo caindo dentro do poço
E eu menino o tirando pra fora.
Perderam somente o meu outdoor
O caixão do meu pai não passava no corredor
As pessoas leves, soltas, e eu na viatura
No caminho do aeroporto fundiu o motor
Com criança de colo na estrada escura.
Abri os olhos: a lua ali, na ponta da proa
Fui agraciado com um corredor polonês
Seu nome correto era vagina
Quebrei a secretaria da escola na minha vez
Tudo por conta de uma vacina.
E o grande banquete era porco com pêlo
Depois de seis meses segurei sua mão
Não fiquei com nada, só com a alma lavada
Quem nos recebeu foi um pastor alemão
A juventude tem sua graça.
Saí desatinado quando o jogo acabou
Me debatia com a bóia presa aos pés
E enfim saiu a porra bendita
Então ele se virou e falou Zezé
Até hoje ninguém acredita.
Quando soube do lápis no cu do Viana
Agora meu pai era um querido defunto
Disse que eu tinha também o bem dentro de mim
Sentia atônito a imensidão do mundo
Então a lua desceu literalmente no jardim.
Joguei 90% dos trabalhos no lixo
Uma bruxa de repente escancarou a janela
Cheguei de viagem, o menino havia morrido
Brochei quando ela apagou minha vela
Que iluminava seu corpo bonito.
Uma após outra as canções nasciam
Crianças também tomando a auasca
O quanto aquele beijinho me reconfortou
Por exemplo, depois da feira, chegando em casa
Já sofri o pão que o diabo amassou.


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