Nessa página de vidro pretendo simplesmente fazer caber a minha vida. Talvez falte, talvez sobre espaço, conforme o tamanho da vida em questão. É claro, estou chamando de vida o restrito departamento do trabalho. Mas a palavra cabe, se o trabalho tiver sido realizado com profundo amor. Chamamos um filho, algumas vezes, de minha vida. Talvez a produção artística tenha uma dimensão semelhante, por pobre que seja; a obra nasce de um estreito relacionamento com um Outro que reside dentro de nós, e é grande o esforço de gestação. Se o fruto não servir pra nada, a culpa não é dele, nem do autor, nem do Outro; foi com amor e esforço também que a natureza criou alguns homens, vermes e cascalhos, que deixariam perplexo quem buscasse neles um sentido de existência.

Dentre as qualidades dessa página de vidro, destaco sua transparência. A luz aqui pode entrar e sair, ser vista de frente – por mim – ou por trás – onde estão vocês. No salão informal desse espelho vazado, todos convivem de livre e espontânea vontade. Um trabalho apreciado com tal intimidade e por tantos lados se aproxima de sua razão de ser.

A página inicial não trará novidades da semana, como costuma acontecer nos verdadeiros blogs, mas conteúdos que semanalmente espero dispor em destaque, retirados dos livros e desenhos organizados no interior do blog. Poucos gostam de ler tantos contos ou poemas ou peças, ou ver tantas imagens; nessa página primeira, a maioria dos visitantes poderá ter um panorama do meu trabalho – e logo desistir, se for o caso. Portanto, somente nas páginas internas se encontrará a totalidade daquilo que quero expor.

De resto, o blog se explica por si mesmo. Vocês encontrarão nesses primeiros meses setores incompletos, por conta da cansativa revisão de todo o material, da produção das fotos de esculturas e baixo-relevos e pelas próprias dificuldades técnicas dessa mídia, tão comum às pessoas, mas estranha a mim.


2.4.12

A Companheira



“Também, você joga tudo pro ar...”, pensei... não, ouvi, alguém falou... então me virei e a vi. Parecia uma menina de origem hindu, a julgar pela pele morena e o turbante branco na cabeça. Não, era uma mulher de feições joviais e sua beleza plácida era familiar. Estava sentada em cima de uma pedra, mas não havia pedra; seu corpo simplesmente acomodava-se na posição sentada, e olhava para um abismo que também não existia, apenas um nevoeiro ou nem isso, o cinza de um nevoeiro. Voltou-se para mim, sorriu e me disse: “então me encontrou...”, ao mesmo tempo em que eu pensava: “então você existe...”. Mantinha-se serena, ainda que eu tenha notado em seu olhar uma leve expressão de surpresa com a minha descoberta. Perplexo, compreendi de imediato que é ela quem me acompanha desde sempre, que é dela a voz que sopra os meus pensamentos, especialmente aqueles que me resgatam do desânimo e da desilusão, quando parece não haver saída. Nessa hora (em todas as horas, mas no cotidiano é imperceptível) ela vem e me fala, e se meu estado de ânimo é tal que nem ouço seu sussurro sutil, transporta-se para a voz de qualquer pessoa, de um transeunte, de uma criança, ou então me envia a mensagem através das coisas, orelhas de livros, bulas de remédios, programas de televisão. Sempre pressenti a sua existência (nunca sob a forma de menina-mulher que parece me amar com amor humano, imaginava o estereótipo de um anjo ou um espírito ancestral qualquer) e, quem sabe, eu a tenha encontrado pela frequência com que venho caminhando por ermos arriscados, labirínticos, onde se convive com a matéria transcendente sem grandes sobressaltos. Mas é possível também que tenha ocorrido um pequeno descuido de sua parte ao me falar de tão perto, acostumada talvez com meu jeito de escutá-la com o olhar fixo no chão. E eu me virei. Ela não se importou nada com isso, pois continuava sorrindo com a segurança de quem sabia que sua realidade não resistiria às primeiras intempéries do dia. Quando acordei, sua presença (em especial, a sua beleza) ainda estava intacta, e aquela frase em que comentava a minha impulsividade ressoava intensamente dentro de mim.

Eu não acordei de um sono — eu mal tinha me deitado e demoro muito pra adormecer. O que aconteceu, eu sei, não foi um sonho – mas isto é irrelevante. Escrevo somente para tentar subverter, ao menos em parte, a sua certeza infalível de que será esquecida (mesmo que a inexorável correnteza já esteja de fato levando seu espectro...). Palavras nunca serviram com precisão à substância da vida, mas podem enunciar, a seu modo, a metafísica. Por isso, este registro se propõe apenas a conservar a memória etérea do nosso encontro na projeção física e limitada das palavras.


P.S.: Agora que passo a limpo este texto, alguns meses depois, não tenho mais lembrança concreta alguma, restando-me somente aquilo que as palavras puderam reter. Dói-me especialmente ter perdido a noção de sua beleza, palavra que usei duas vezes no meu relato e que hoje percebo, abismado, não significar mais nada. Sou um leitor, como vocês. É como se a minha experiência comprovasse a abstração retórica das palavras. Mas o intento, como foi dito, não era outro; de algum modo, ela foi trasladada para uma linguagem que me permite ao menos sonhar.

2 comentários:

bia reinach disse...

Zé,
Sou e sempre serei tua fã!
As tuas palavras ressoam, abrem espaço, encontram eco em experiências que tenho/tive e não encontrei palavras.
Origada... hoje ... sempre
bia

bia reinach disse...

Obrigada! E não origada....