Sob
a Lua Cheia
Ouvi de um místico chinês quando eu era
jovem para ter cuidado com noites de lua cheia. Lua cheia rouba energia. É tão difícil para um urbano poder reparar a
lua que, desobedecendo a orientação do mestre, continuei a me encantar com ela,
mesmo me sentindo culpado.
Hoje, andando debaixo de uma rara lua
cheia paulista, recordei-me da recomendação, esquecida por mais de trinta anos. As arbitrariedades do misticismo oriental, ao
menos em nossa época (falo de um modo muito geral, sem levar em consideração as
incontáveis nuanças), acabam por confundir ou escamotear a verdadeira grandeza
das filosofias e religiões em que se baseiam.
Se, por um lado, certa tradição oriental nos ensina, por exemplo, a não
controlar a vida, vários de seus modismos, ao contrário, parecem querer
controlar todas as vias invisíveis de
energias - existentes e inexistentes - envolvidas em cada ente ou fenômeno da
natureza e no nosso corpo. A isso se soma um rigoroso conhecimento do sentido
de cada hora de um dia e o que de melhor se deve fazer em cada momento. Sobre toda
a evolução da vida, sabem a razão do fluxo e do sentido.
É evidente que, por trás de tanta
arrogância, existe um modus operandi de
regras e convenções para a vida que deve funcionar mais eficientemente pelo
menos que o modo nada operante do meu caos, da minha “metamorfose ambulante”.
Mas não vejo superioridade entre esses métodos arbitrários e custosos de
conduta e as regras e o rigor com que minha mãe aos oitenta e seis conduz plenamente
a sua vida, cuja sabedoria trouxe das ruelas escuras de Itapetininga.
Parecem confundir, muitas vezes, o
símbolo com a coisa. Quando dizemos fogo, terra, ar e água, em mais um exemplo,
estamos refletindo sobre categorias simbólicas e impalpáveis dos estados transitórios
do nosso espírito; mas, hoje em dia, a medicina oriental diagnostica
objetivamente qualquer doença pelo desequilíbrio desses símbolos, como se
fossem realidades concretas. Acertam, é claro, algumas vezes, pois a acupuntura,
dentre outras medicinas do oriente, guarda um conhecimento prático histórico
inquestionável. Mas seu discurso é deveras questionável. Mesmo assim, acho que
ainda procuramos intuitivamente nesses tratamentos qualquer coisa distinta da linguagem cientifica e estupidamente
cega e muitas vezes também eficiente da medicina ocidental.
Brinquei comigo, caminhando sob a lua:
digamos que aquele senhor estivesse certo, o que afinal a lua teria me roubado
nesses anos? Será que foi por ela que me tornei leso? Será que esse fenômeno
explica as minhas dores? Será que ela vem tornando o homem milênio a milênio
mais débil e idiota? Será que o próprio esplendor da lua cheia se deve à
quantidade de energia que chupa dos humanos a cada ciclo?
Encontrei então uma formulação fabulosa
que me satisfez. Imaginei um chinês inventando a ideia: a lua cheia rouba
energia. Mas o cara, metódico como todos os místicos orientais, certamente dormia
ao anoitecer, em seguida ao último chá, e, portanto, sentia sono no momento de
analisar o movimento monótono do astro. Daí até a sua conclusão foi um pulo. E
daí até espalhar a ideia ao mundo, dois pulos.
A coisificação das forças naturais (nada tão
distinto do próprio conceito marxista para o termo) deixa de lado duas outras
fontes de sabedorias intrínsecas às melhores filosofias religiosas orientais do
mais longínquo passado: a contemplação e o respeito ao mistério.
Um comentário:
Muito bom.
E linda a foto!
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