Nessa página de vidro pretendo simplesmente fazer caber a minha vida. Talvez falte, talvez sobre espaço, conforme o tamanho da vida em questão. É claro, estou chamando de vida o restrito departamento do trabalho. Mas a palavra cabe, se o trabalho tiver sido realizado com profundo amor. Chamamos um filho, algumas vezes, de minha vida. Talvez a produção artística tenha uma dimensão semelhante, por pobre que seja; a obra nasce de um estreito relacionamento com um Outro que reside dentro de nós, e é grande o esforço de gestação. Se o fruto não servir pra nada, a culpa não é dele, nem do autor, nem do Outro; foi com amor e esforço também que a natureza criou alguns homens, vermes e cascalhos, que deixariam perplexo quem buscasse neles um sentido de existência.

Dentre as qualidades dessa página de vidro, destaco sua transparência. A luz aqui pode entrar e sair, ser vista de frente – por mim – ou por trás – onde estão vocês. No salão informal desse espelho vazado, todos convivem de livre e espontânea vontade. Um trabalho apreciado com tal intimidade e por tantos lados se aproxima de sua razão de ser.

A página inicial não trará novidades da semana, como costuma acontecer nos verdadeiros blogs, mas conteúdos que semanalmente espero dispor em destaque, retirados dos livros e desenhos organizados no interior do blog. Poucos gostam de ler tantos contos ou poemas ou peças, ou ver tantas imagens; nessa página primeira, a maioria dos visitantes poderá ter um panorama do meu trabalho – e logo desistir, se for o caso. Portanto, somente nas páginas internas se encontrará a totalidade daquilo que quero expor.

De resto, o blog se explica por si mesmo. Vocês encontrarão nesses primeiros meses setores incompletos, por conta da cansativa revisão de todo o material, da produção das fotos de esculturas e baixo-relevos e pelas próprias dificuldades técnicas dessa mídia, tão comum às pessoas, mas estranha a mim.


4.7.12


Sob a Lua Cheia



Ouvi de um místico chinês quando eu era jovem para ter cuidado com noites de lua cheia. Lua cheia rouba energia.  É tão difícil para um urbano poder reparar a lua que, desobedecendo a orientação do mestre, continuei a me encantar com ela, mesmo me sentindo culpado.

Hoje, andando debaixo de uma rara lua cheia paulista, recordei-me da recomendação, esquecida por mais de trinta anos.  As arbitrariedades do misticismo oriental, ao menos em nossa época (falo de um modo muito geral, sem levar em consideração as incontáveis nuanças), acabam por confundir ou escamotear a verdadeira grandeza das filosofias e religiões em que se baseiam.  Se, por um lado, certa tradição oriental nos ensina, por exemplo, a não controlar a vida, vários de seus modismos, ao contrário, parecem querer controlar todas as vias invisíveis de energias - existentes e inexistentes - envolvidas em cada ente ou fenômeno da natureza e no nosso corpo. A isso se soma um rigoroso conhecimento do sentido de cada hora de um dia e o que de melhor se deve fazer em cada momento. Sobre toda a evolução da vida, sabem a razão do fluxo e do sentido.

É evidente que, por trás de tanta arrogância, existe um modus operandi de regras e convenções para a vida que deve funcionar mais eficientemente pelo menos que o modo nada operante do meu caos, da minha “metamorfose ambulante”. Mas não vejo superioridade entre esses métodos arbitrários e custosos de conduta e as regras e o rigor com que minha mãe aos oitenta e seis conduz plenamente a sua vida, cuja sabedoria trouxe das ruelas escuras de Itapetininga.

Parecem confundir, muitas vezes, o símbolo com a coisa. Quando dizemos fogo, terra, ar e água, em mais um exemplo, estamos refletindo sobre categorias simbólicas e impalpáveis dos estados transitórios do nosso espírito; mas, hoje em dia, a medicina oriental diagnostica objetivamente qualquer doença pelo desequilíbrio desses símbolos, como se fossem realidades concretas. Acertam, é claro, algumas vezes, pois a acupuntura, dentre outras medicinas do oriente, guarda um conhecimento prático histórico inquestionável. Mas seu discurso é deveras questionável. Mesmo assim, acho que ainda procuramos intuitivamente nesses tratamentos qualquer coisa distinta da linguagem cientifica e estupidamente cega e muitas vezes também eficiente da medicina ocidental.

Brinquei comigo, caminhando sob a lua: digamos que aquele senhor estivesse certo, o que afinal a lua teria me roubado nesses anos? Será que foi por ela que me tornei leso? Será que esse fenômeno explica as minhas dores? Será que ela vem tornando o homem milênio a milênio mais débil e idiota? Será que o próprio esplendor da lua cheia se deve à quantidade de energia que chupa dos humanos a cada ciclo?

Encontrei então uma formulação fabulosa que me satisfez. Imaginei um chinês inventando a ideia: a lua cheia rouba energia. Mas o cara, metódico como todos os místicos orientais, certamente dormia ao anoitecer, em seguida ao último chá, e, portanto, sentia sono no momento de analisar o movimento monótono do astro. Daí até a sua conclusão foi um pulo. E daí até espalhar a ideia ao mundo, dois pulos.

A coisificação das forças naturais (nada tão distinto do próprio conceito marxista para o termo) deixa de lado duas outras fontes de sabedorias intrínsecas às melhores filosofias religiosas orientais do mais longínquo passado: a contemplação e o respeito ao mistério.




Um comentário:

Anônimo disse...

Muito bom.
E linda a foto!