Nessa página de vidro pretendo simplesmente fazer caber a minha vida. Talvez falte, talvez sobre espaço, conforme o tamanho da vida em questão. É claro, estou chamando de vida o restrito departamento do trabalho. Mas a palavra cabe, se o trabalho tiver sido realizado com profundo amor. Chamamos um filho, algumas vezes, de minha vida. Talvez a produção artística tenha uma dimensão semelhante, por pobre que seja; a obra nasce de um estreito relacionamento com um Outro que reside dentro de nós, e é grande o esforço de gestação. Se o fruto não servir pra nada, a culpa não é dele, nem do autor, nem do Outro; foi com amor e esforço também que a natureza criou alguns homens, vermes e cascalhos, que deixariam perplexo quem buscasse neles um sentido de existência.
Dentre as qualidades dessa página de vidro, destaco sua transparência. A luz aqui pode entrar e sair, ser vista de frente – por mim – ou por trás – onde estão vocês. No salão informal desse espelho vazado, todos convivem de livre e espontânea vontade. Um trabalho apreciado com tal intimidade e por tantos lados se aproxima de sua razão de ser.
De resto, o blog se explica por si mesmo. Vocês encontrarão nesses primeiros meses setores incompletos, por conta da cansativa revisão de todo o material, da produção das fotos de esculturas e baixo-relevos e pelas próprias dificuldades técnicas dessa mídia, tão comum às pessoas, mas estranha a mim.
27.1.11
Se a própria palavra já é cheia
de sílabas que fazem barulho
inda mais o sentido do orgulho
como Narciso no espelho:
oh ego, qual a minha verdade?
E o espelho: você não sabe
que não sabe que não sabe...
Mas o orgulho tem o seu valor
como enzima de reações humanas
pois como sempre é derrotado
cada queda serve de exemplo
para um aprendizado lento
cujo fruto não se colhe hoje
– somente no fim dos tempos.
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Pastel seco (23,5x30,5 cm) |
Não!
use o verbo chover
use os tempos da chuva
o substantivo chuva
o plural, chuvas
o alívio, ...’uva.
Nascer é fácil
quero ver renascer
sem pai sem mãe sem cabeça;
perder o cabaço
no poço do cagaço
e tudo começar de novo.
Um ovo, uma ova!
Quis tocar com as mãos
uma só vez, não
não sabe: a coisa.
Escrever não consigo
– sertão maligno.
Você não entende, não entendo
o que eu digo.
Pomba preta no telhado.
Antena.
Pó rendado.
Pura expressão
o que seria
(para mim)
o que seria?
Olho bruto.
Olho culto.
Olho hindu.
Olho urutu.
Olho guru.
Olho cru.
Olho nu.
Sobre a ponte um camelô anuncia:
lá vem o chinês com um cetro em cima.
Era o chinês com o cetro em cima.
É o chinês com o cetro em cima.
Fecho os olhos: é o chinês.
Abro os olhos: já era.
Fecho os olhos.
A pobreza do encanto
a ilusão do que reluz;
nada resplandece
nada é translúcido
e basta de prefixos;
só o canto, a luz
e o lúcido.
Falei como Fernando Pessoa
falamos dele na conversa.
A conversa foi boa
à toa, descomplexa
mesmo aquela do círculo
cujo raio era o cúmulo
de pi infinito.
Se isso fosse poesia
eu diria:
também pudera
o tempo da arara
o mais-que-perfeito;
a dor, a flora, o amado
a rima, o ritmo, o contratempo.
E a ira, a gana, a tara
como fica?
Uma criança grita, cristalizará.
Ninguém escuta a hora, haverá.
De repente ecoa, carcará.
Jou, já, jará
agouro, agora, gorará.
Quando então toca a campainha:
é a Morte
o vexame a galope.
Digo a ela: podes me levar
mas me trarás de volta
pois acertaste o endereço
mas erraste a hora.
("Aquele valente medieval...
por instantes sei do poeta...
sou poeta nessa noite tolda
sou quem-anda pelas florestas..."
Foi o que escrevi
debaixo daquela lua
lá na bruxa que pariu...)
"Dez horas da noite
na rua deserta
a preta mercando
parece um lamento...
Ô acarajé ecoô
ora iê-iê-ô
vem benzê, ehn...?"
O que lamenta a preta
o que deserta a rua?
Que noite canta essa canção
que todos ouvem certos
que todos testemunham
e que distingue essa noite das noites
numa preta escura?
Teta pura
carne dura polida
de preta é mais bonita
no silêncio desse canto
num canto de rua...
“Parece um lamento
unm, unm, unm...”
Lembrança não é bananeira
mãe nação: parteira
pai patrão: porteira
meu sertão: veredas.
Toda dor é passageira
desde a partida
até a derradeira.
O que é isso, José?
Você eu mesmo, José!
Eu você precisamos dormir.
A chuva acabou, o poema acabou
o que mais, José?
Nunca tinha escrito meu nome
como agora.
José sou eu
José aflito
José-josé bendito
não como esses Josés de poemas e canções
estereótipos de homem comum.
Josés assim são incomuns.
Eu sou o único comum.
Filha, vem cá.
Você está bonita.
Quantos anos você tem?
Você conhece seu pai?
Eu também.
Agora deixe o papai trabalhar
e feche a porta.
Deu medo.
Deu muito.
Deus medos.
Olhei pra lua, era um poeta.
A lua desceu, era o demo.
Foi no ano de setenta e sete
não me perguntem como.
Escrevia o ingênuo:
"Não sou poeta nessa noite tolda
sou só um ratinho escrivão
desta toda imensidão
sou só um cambaleante
navegante desses espaços
muito maior que eu possa..."
Depois disso não deu.
Depois disso:
morreu. Depois
durou.
Duro depois.
Depois não era.
Depois, foi engano.
Por isso, cuidado ao olhar a lua
com esse olhar de poeta, olhar nu.
Nu e nu, é cru
cru é cru, é cruel
quem crê crê, é fiel
e a fé é o fio, desafio
que eu fiz, fiei, fio e confio.
Ei mãe, minha massa
what's happenning with your children?
Estranho stranger
"Strange Fruit".
Corpo de ferrugem ruge
sangue que não corre, ruge
mas um dia todo o dia o sol ressurge.
Quem é a dona destes pares? São teus.
De quem são estes trapos? Teus.
E estes troços, estes troncos, estes braços?
Teus.
E estes olhos, boca, e a porra destas palavras?
Tuas.
Então leva.
Tem mais um detalhe:
não adianta raça no futebol
nem emoção na poesia
nem paixão no amor
nem jogar tinta na tela
nem soltar a voz no microfone
nem a franga no palco.
Chorar sim
mas chorar sem
chorar sal
chorar como vem
vão.
Chorar como chuva
num chorão.
Poemão:
essa língua não é minha
anda solta, à-toa
a procura de ecos perdidos
no templo da boca;
voz vazia de matéria
ou vasilha da coisa oca.
Diz agora baixinho:
que beleza a natureza
como vem esse verão
como dói essa vida
ou melhor, como castiga
esse ano que passa...
psiu...
Como o vento desenha
a ordem na areia
como a areia aceita
as patas do animal
como a onda apaga
a ordem e as pegadas:
a vida é superficial.
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Xilogravura (20x11 cm) |
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Bico de pena (36x25 cm) |