Mãe
Andando em rua movimentada e ruidosa, recebo uma chamada confusa no celular – eu também estou em meus dias de perturbação. Uma voz distante mas familiar anuncia de maneira truncada algo como mamãe morreu... e eu digo o quê?, mas a ligação esvai-se e logo retorna com um choro ao fundo, eu desesperado grito o quê, como?, até distinguir com clareza: no cemitério da Consolação.
Agoniado, não consigo discar os números dos irmãos nem o da minha mãe. Penso nos trotes que vêm acontecendo com frequência na cidade – agora me parece evidente: a chamada foi propositadamente obscura. Num instante, toco a campainha de sua casa para constatar, depois de um mísero tempo infinito, que ela abre a porta, em carne e osso.
Choro copiosamente, abraço forte aquela estranha senhora, sentindo seu corpo como nunca em meus braços. Ela então recua admirada, ou melhor, embaraçada com meu jeito descabido. Foi um trote, parecia a voz da minha irmã dizendo que a senhora tinha morrido... Ela balança a cabeça em solidariedade a meu transtorno e diz entre, vamos tomar um café.
Na cozinha, ainda sobressaltado, passo a falar e a reparar que falo desordenadamente, enquanto ela, de costas para mim, alcança os apetrechos do café.
– Estranho, mãe, o susto, isto da morte vir de repente, graças a Deus não foi nada, mesmo com a sua idade não é fácil receber uma notícia assim...
– Já passou.
– Ficou uma sensação, se tivesse sido... sinto que me faltaria alguma coisa, assim de repente, poderia ter sido, e se fosse, se eu não pudesse mais falar com a senhora... É essa a sensação... agora é como se a gente tivesse uma chance, é por isso que eu preciso falar, falar de coisas que estão guardadas toda a vida, aproveitar que não aconteceu, que senão eu nunca mais... falaria...
Não sei ao certo o que tanto necessito expressar, menos ainda como começar. Sinto aquela velha pressão sobre meu corpo, que me curva e oprime num sono profundo do qual desperto assustado para me certificar de que ela ainda está ali. Continua ali como sempre esteve, altiva, elegante, apenas um pouco pálida, e eu sei por quê: fica assim quando se contraria. E a causa sou eu que mais uma vez a aborreço, o que também não é novidade, faz parte da nossa história, esse é o seu filho e ela o conhece bem – aquele que tem por hábito carregar um lastro nas costas. A luz de sessenta watts nessa cozinha acanhada cria um espaço demasiado íntimo para a formalidade da nossa relação, o que me envergonha como se eu estivesse profanando algo. Qualquer coisa incestuosa. Ela percebe algo similar, por isso também se incomoda diante do meu descontrole afetivo. Mas estou decidido a falar, ainda há pouco quase perco a oportunidade, eu tenho uma represa a ponto de transbordar no meu coração. Seria melhor se estivéssemos na sala. Retomo a tentativa de um discurso.
– A gente nunca conversou, é isso. Não é possível que somente depois de um episódio como esse eu tenha coragem de tentar alguma coisa, das tantas que eu trago aqui dentro. Olhe pra mim, me ajude a falar. Não sei bem o quê. Mas a senhora sabe. Eu sou fechado, a senhora também – apesar de conversar mais facilmente com meus irmãos –, a gente tem que tentar, pelo menos dessa vez.
Enfim ela levanta o rosto e diz com a costumeira firmeza:
– O que eu fiz de errado?
– Não, nada, não é por aí. A senhora sempre cuidou muito bem de todos nós, nesse sentido foi exemplar. Nunca houve nada, nada, que tenha maculado seu esforço de manter a casa em ordem. O zelo com nossos uniformes, as refeições na hora certa, o acompanhamento das lições, a educação religiosa, os conselhos, não houve nada de errado. Não é isso. É um vazio, uma coisa que faltou e que até hoje permanece, a senhora sabe, gostaria que me dissesse. Sempre nos tratamos como meros conhecidos, até minha mulher tem mais liberdade contigo, eu não, eu não sei como.
Ela havia me oferecido de início um café, pareceu-me tê-la visto fazendo café, mas acaba por me servir um chá mate e se mantém em pé, recostada na pia, esperando o tempo passar. Nesse momento percebo que menti quanto a ignorar o que desejava dizer. Mas é só parar de falar e me abate aquele sono, viajo longe, esquecendo-me de onde e com quem estou; contudo, uma vontade decidida resgata-me das catacumbas e me traz de volta para encarar mais uma vez o corpo dessa mulher apoiado na pia.
– Mãe, carinho. É isso. A falta é essa. Tato. Não agora, entenda, já não dá mais – me faria mal. Não estou pedindo carinho, estamos conversando. Também envelheci – hoje em dia seria ridículo. Mas antes, seu jeito frio de me tocar o mínimo, somente o necessário pra fechar os botões, ou de pentear meus cabelos só com uma mão, a que segurava o pente, somente o pente. Esse abraço de hoje, espontâneo, foi a primeira vez que senti seu corpo, mas quase que não, pois era um abraço desesperado, mas no meio pude perceber também que nos encostávamos. Vou lhe contar: quando era moleque eu me achava fedido, e não adiantava tomar banho, parecia que minha mãe tinha nojo. Do R. a senhora não tinha, não sei, eu te via às vezes dando uns beijinhos nele, e das meninas também não, até tomavam banho juntas... De mim a senhora tinha nojo.
– Não fale bobagem. Nunca fiz diferença entre você e o R. Com as meninas sim, mas simplesmente por serem moças. Eu eduquei vocês da forma com que fui educada. Você pensa que minha mãe tocava em mim? Que meu pai era carinhoso? Antigamente não era assim, e ninguém tinha problemas. Agora me diga: por que os outros filhos não se queixam?
Enquanto ouço essas considerações já esperadas – mas nunca claramente ditas nessa sequência objetiva –, eu me encolho e quero fugir. Por que fui começar tudo isso? E agora, como acaba? De fato, a questão não é nojo, isso eu sentia na infância – não sei como pude me desviar tanto a ponto de deixar emergir memórias tão longínquas... Tem a coisa inata; eu também nunca soube receber carinho, sei disso pelo quanto me incomodam certas aproximações da minha esposa. Mas o que é causa e consequência? Quero ir embora, sumir. Ela havia deixado a pergunta no ar.
– Cada um... cada um... Não sei. Será que tudo foi igual? Eu sou igual ao R.? Desse jeito é como se eu tivesse cobrando a senhora, não é isso – de que adianta? Não tem conserto, talvez também não haja nada errado, e a vida seja assim, e eu sou assim. Mas mãe é uma, filho só tem uma chance. Destino é uma mãe e um pai, ou só um, ou nenhum deles. Se hoje eu a tivesse perdido, perderia duas coisas: minha mãe propriamente e a possibilidade de um dia falar com a senhora. No fundo, confesso, parece haver em mim uma inocente esperança... Pode ser que eu sonhe com uma remota proximidade... Então é por isso que estou falando essas coisas.
– Pode falar o que quiser, você sabe que só está me machucando. O que eu posso fazer? Na minha idade, não existe transformação. Conversa nenhuma muda oitenta e oito anos. De qualquer forma eu entendo e me entristeço pela sua dor, apesar de não me sentir culpada, apenas desapontada e incapaz diante do impasse. Você não vai atender?
É o celular que toca. Ignoro. Algo de bom acontece, pois agora a pressão se ameniza. Suas palavras duras me ajudam, porque entendo profundamente o quanto a rígida clareza de seu discurso, que por toda a vida admirei, esconde seu medo por qualquer amor. Isto me chega não como uma novidade em si – o desvelo é mais espacial: eu e ela ali, constrangidos naquela cozinha estreita, aí sim; um ser inteiro em seu vazio diante de um totem que não pode ser minimamente diferente do que é.
– Você não pega hoje seu neto na escola? São seis horas...
– Estou indo. Mesmo assim, mãe, foi muito bom ter falado, com certeza para mim.
– Você diz essas coisas, mas é o mais distante dos filhos...
Chego à porta da escola repleta de jovens pais, o celular toca insistentemente. É minha irmã, e a ligação é nítida. Ela chora, reclama e chora, sem saber por que razão eu não comparecia ao velório.
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Pastel e lápis de cor (15,5x19,5 cm) |