– Professor, e a aula ?
Estou tentando, não veem? Já disse, eu estava muito bem no aconchego de casa, não precisava passar por essa humilhação. É um absurdo que nenhum representante oficial tenha vindo me recepcionar e apresentar-me a vocês, e sobretudo definir a minha área. Notório saber em quê, meu Deus? Originalmente, a palavra saber significa ter gosto pelas coisas, e eu gosto de tudo, não sei por onde começar. Minha mãe dizia que eu era um bom intérprete da alma humana, e levaria jeito como terapeuta se houvesse me dedicado a esse fim com afinco. Talvez tivesse razão... é verdade, eu sempre observei... mas as pessoas confundem o psicólogo simplesmente com alguém que sabe ouvir. Ouvir, de fato, é uma rara qualidade, e reconheço que possuo esse dom. Mas não posso ensinar ninguém a escutar, começar uma aula dizendo assim: sou todo ouvidos, digam alguma coisa pra mim e observem como eu faço... É claro que para um psicólogo não basta apenas a audição, em algum momento o cara precisa falar e, para isso, ter estudado o suficiente até escolher um modelo satisfatório para a análise dos casos – do que minha mãe não fazia a menor idéia. Para ela, meu jeito tranqüilo (tendendo ao lento), além de uma certa pompa no jeito de comentar aspectos íntimos da natureza humana, fariam de mim um bom profissional ou, pelo menos – e esta era evidentemente a sua intenção – conseguir encontrar um rumo na vida.
Alguém aí tem alguma dúvida? querem se abrir comigo? será que trouxeram alguma coisa? Também vocês não ajudam, se me apresentassem algo de concreto eu identificaria uma área de atuação. Meu ex-cunhado me elogiava, em tempos de outrora, como um bom crítico de seus projetos – ele que se tornou um arquiteto de renome. Mas não pensem que porque freqüentei anos a fio a biblioteca da Faculdade de Arquitetura eu tenha me tornado um autodidata na matéria, não! jamais abri ali um só livro de arquitetura! Interessava-me somente pela seção de arte, o que também não me fez um crítico ou historiador, até por nunca ter entendido uma palavra em inglês ou francês, línguas que dominam a maior parte dos livros, e ademais, mesmo quando passava os olhos por aqueles enfadonhos parágrafos dos poucos exemplares traduzidos, logo me escapava o conteúdo, pois, como falei, sempre fui um incapaz com as datas, nomes ou fatos históricos, ainda mais aquelas bagatelas como nascimento de pintores, características dos estilos, contextos sócio-econômicos... Dedicava-me somente às figuras, às variedades das representações de cada civilização, à profusão das formas alcançadas pelos grandes mestres, com os quais, confesso, me identificava e imitava de tal modo que cri poder estar a caminho de ser um deles, quando da minha frustrada tentativa de ser pintor. Agora vocês compreendem minha fascinação pela arte...
Estou vendo que a chuva engrossa, mas ainda não terminei esta aula bastante informal, e não há nada pior do que ter o pensamento interrompido! Como ia dizendo, mergulhei na pintura, sim, cheguei até a me aproximar de um certo estilo, mas minha autocrítica foi por demais impiedosa, não dava paz um minuto. Acabei por desistir da carreira. De que serve uma atividade que só gera angústias, e na qual não se vislumbra nenhuma perspectiva? É evidente que essa é minha verdadeira área, e me sobrou o suficiente para ensiná-la a leigos, mas nunca num lugar como este, aberto, sem nenhuma infraestrutura, e além do mais, se tivesse sido convidado como professor de artes, vocês estariam carregando consigo cadernos e papéis. Vejo que não. À vera, os poucos que avisto parecem estar nem aí... Aquele casalzinho lá, embaixo do guarda-chuva, não está interessado em nada... Alguns passam apressados, cabisbaixos... E reparo, que não sou trouxa, certos olhares desconfiados, irônicos..., por quê? Esse mesmo senhor uniformizado já cruzou aqui, de um lado para o outro, duas, três vezes, ignorando-me categoricamente, sem um mínimo respeito...
É claro, estamos em greve! Agora entendo perfeitamente: marcaram minha aula em dia de greve! E eu aqui fazendo papel de fura-greve, logo eu, desde sempre um radical contestador – não devia ter vindo. Podiam ao menos ter me avisado, quiçá contassem que eu soubesse...; o telefone é da minha vizinha, e ela esquece com freqüência de me dar recados. E certamente é por isso também que ninguém da congregação veio me recepcionar.
Gostaria de aderir à greve, como posso justificar ao movimento que trabalhei por engano? ainda mais agora, quando a aula está na iminência de ser concluída? Também já fui jovem, sei que para a juventude é importante a solidariedade dos docentes. Mas é muito azar, logo no meu primeiro dia, com toda a importância que este momento representa para mim... Essa situação me faz recordar um caso que aconteceu comigo quando completei dezoito anos – escutem essa! Desconfiava de que meus amigos me fariam uma festa surpresa, havia entre eles uma movimentação evidente neste sentido, e tudo se confirmou quando escalaram uma colega gordinha e sem graça pra me levar à noite ao cinema – evidentemente, queriam tempo de preparar as coisas. Fiz minha parte na encenação, dizendo a todos que não iria comemorar, que não gostava de aniversários, e sobretudo aceitando sair com a tal menina mala, como vocês dizem hoje em dia. Durante a sessão, ela habilmente insinuou-se a meu lado obrigando-me a redobrar a cautela, e, ao final, manifestou o desejo de ir pra minha casa. Eu, no meu papel, endossei o convite. No trajeto do ônibus, sentia-me altivo e deveras maduro no modo vago e educado de responder a seus estímulos sedutores – desculpem-me senhoras, não quero baixar o nível, mas homens ficam assim quando não estão atraídos. Então chegamos e, como era de se esperar, as luzes estavam todas apagadas. Adentramos o corredor lentamente (não tinha pressa, queria curtir tudo devagarinho). Abri a porta simulando naturalidade, acendi a luz da sala e tive realmente uma surpresa impactante: estava tudo no lugar, não havia festa alguma.
Não sei por que me voltou este caso tão antigo, peço que me perdoem por esse lapso emotivo. Está escurecendo, a chuva aperta – é hora de irmos. Aliás, agora vejo, exceto esta boa negra que me aguarda atenciosa debaixo do seu guardachuva, não há mais ninguém aqui. Não é feia, ao contrário, pela idade, está até em forma – percebo que não é pouco o que esconde debaixo do uniforme. Se soubessem o bem que faz ao professor um aluno que se interessa pela aula e que eleva seu mestre com cuidados e elogios, confundindo algumas vezes esta admiração até mesmo com uma atração libidinosa que se anuncia através de um olhar furtivo, de um sorriso maroto, um toque casual de mãos, tudo disfarçado em pequenos gestos de ajuda, cujas reminiscências vêm à noite alimentar os sonhos... Já que o professor, no alto do seu pedestal, não deixa também de ser um homem comum, humano, carente, que necessita dessa simbiose com os alunos para completar sua natureza imperfeita...
– O senhor está bem?
Claro que estou, só um pouco molhado, mas não me incomodo. Escureceu e eu nem notei. Na próxima aula virei mais preparado, é inegável que hoje estive um pouco confuso. A negra me oferece carona em seu guardachuva, gostaria de poder acompanhá-la, pena, vou pra lá, pro outro lado.
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