O Sonho da Torre e o Caso que se Sucedeu
Em volta da torre de pedra estão esculpidos signos abstratos que simbolizam a essência de todo o conhecimento concebido pelas civilizações através do tempo. Essas inscrições imprimem na parede um relevo áspero e saliente, pelo qual alguém poderia escalar sua altura desmedida, e assim atingir o topo, onde, num círculo diminuto não maior que dois metros, reside um pássaro cinza extremamente delicado, como indicam suas asas transparentes semelhantes às de uma mosca.
Do ponto de vista deste narrador, observa-se que falta muito pouco para aquele exausto alpinista alcançar o objetivo de encontrar o pássaro, mas a provação por que vem passando ao longo de sua jornada parece ter tornado seu corpo tão rijo quanto a própria pedra em que tenazmente se agarra. E, o que é pior, a energia que ainda consegue empregar, de quando em quando, para avançar um milímetro é o bastante para pôr o pássaro em alerta (eu assisto à cena de cima, como um astronauta na órbita da torre). Agora então, convencido da aproximação iminente do visitante, a ave num átimo se esconde embaixo de uma laje perfeitamente camuflada pela terra e entulho ali esquecidos desde a construção da torre.
Olhar pra baixo, como por capricho acabo de fazer – e me arrependo –, é como enxergar um inferno na terrível visão do abismo.
*
Numa época indefinida, despeço-me em silêncio do mundo e sigo meu destino de escalar a torre. As torres são sempre individuais, e a minha irrompe-se do meu próprio quarto. No início da viagem eu não tinha qualquer consciência da extrema solidão que me aguardava.
Um dia recebo uma carta da minha mãe (na altura em que estou, ainda posso me comunicar com ela): "Falta pouco mais de cinco mil dias para que possamos nos encontrar em definitivo." (Penso: se houver um lugar na morte.) "Vá, meu querido, tenho fé de que quando retornares, nada mais será como antes." O papel que tremia em minhas mãos transforma-se num caixote com doze vasos de violetas rosas e roxas, dispostas alternadamente.
Devo voltar pra dizer a minha mãe que não precisamos esperar pelo futuro, as coisas podem ser como são, ou próximas do que são.
Lá está ela, entre outros conhecidos. Posso me aproximar do grupo, mas não adianta; todos eles já transitam numa região onde não tenho mais acesso ou, quem sabe, jamais tenha tido.
Todos os dias eu subo a torre, mas avanço muito pouco por dia.
Meu irmão ri de mim, e me pergunta irônico se eu ainda vivo em tal torre. Respondo que já estou tão alto, que daqui posso ver a Terra. E ele não imagina como é bela a imensidão azul...
Nesse ponto, a torre tem quarenta centímetros de diâmetro.
Se subo por dentro, ela me aperta e sufoca. Se a escalo por fora, ela balança vertiginosamente, e me resta apenas cerrar os olhos e me agarrar a ela com toda a força.
Na verdade, a torre não tem forma definida, é pura altura. Estar acima ou abaixo são estados iguais – o que quer que eu faça, estarei sempre escalando a torre.
(Portanto, não me atrasa nada ajudar meus pais a descarregar as compras do carro, e levá-las até a cozinha dessa estranha casa que seria a minha, pois ainda assim estou subindo a torre.)
Mas agora me atormento demais; se caminhar para a escola, receber uma visita, enterrar o meu avô são etapas da torre, tenho muitas dúvidas: dentre as coisas que faço, qual me ascende ou descende? E se eu estiver estagnado? E, afinal, como me alimento lá no alto...?
No meio da agonia, acordo aliviado.
*
No dia seguinte narro o sonho a N., inseparável companheiro, que reage com espanto. Para ele, meu sonho é uma preciosidade arquetípica que não pode ser ignorada. Logo me convence a procurar um renomado especialista do inconsciente, sobre quem, por coincidência, ele obtivera recentemente as melhores recomendações. E dispunha-se a me acompanhar. Eu, no meu desalento, perdido nas reminiscências daquelas imagens confusas, aceito tentar alguma coisa.
O cara vive num cortiço labiríntico que se comprime no interior de um prédio abandonado na periferia da cidade, onde havia funcionado uma escola ou repartição pública. Andamos bastante até chegar. Não existe propriamente uma entrada, mas uma fresta num muro semidestruído que outrora contornava um pátio. Duas adolescentes maltrapilhas, uma de cada lado, diminuem ainda mais o vão, obrigando-nos a passar, eu um tanto constrangido, por entre elas. Matracas que são, riem, cochicham e resolvem nos seguir sussurrando mexericos. Aceleramos o passo e alcançamos um largo corredor ao cabo do qual, para nossa surpresa, ao virarmos à direita, defrontamo-nos já com a casa que procurávamos. Não há porta, o corredor ali simplesmente desemboca em três degraus decrescentes – o que basta para demarcar o absoluto contraste desse lugar com o cortiço; aqui tudo é belo, cuidado, limpo e decorado com móveis e objetos históricos, cujo estilo desconheço. Na parede lateral, uma enorme vidraça integra à sala um jardim interno formado por vasos de tipos e tamanhos diferentes, onde se cultivam paradoxalmente uma única espécie de folhagem bicuda. O efeito é inebriante – acredito tratar-se de um jardim destinado a alguma prática religiosa. Enquanto tento encontrar uma porta na vidraça, uma figura ambígua aparece ao fundo da sala; um senhor de expressão jovial, vigoroso, meio mulato, meio oriental, de feições serenas mas qualquer coisa de antipático, a princípio. Como se tivesse pressa, pergunta o que desejamos, olhando simultaneamente o relógio da parede e a mim, e logo completa, com sorriso profissional, que está disponível apenas até às dez horas da noite. Como são quatro da tarde, sorrio do seu jeito amalucado e sinto-me mais à vontade. Comenta que gosta de comer bem, que ainda não almoçou e está esperando ser servido. Meu parceiro se diz faminto também, eu não – raramente me alimento na casa dos outros. O homem deita no sofá e me pergunta sobre o sonho. (Como sabia a razão da visita? Como discerniu, entre dois jovens, quem sonhara...?) Enquanto me acomodo numa poltrona larga que me afunda demasiadamente, N., atrás de mim, antecipa-se e inicia uma narração confusa sobre meu sonho, logo interrompida, para a minha sorte, pela incursão na sala de uma senhora que nos ignora acintosamente, servindo ao filho a refeição numa mesa quadrada com um vaso de ramos secos ao centro. O homem então se levanta num pulo e se dirige a uma estante, de onde retira por entre os livros um prato de fina porcelana com fatias de peixe cru, que serve à mesa. Meu companheiro, sem qualquer cerimônia, já buscara uma cadeira no mezanino e toma lugar ao lado do outro. Eu também me acomodo, em frente ao anfitrião, com o vaso entre nós. Sua mãe se retira. O homem põe um naco de peixe na boca e me procura, em meio aos ramos, com ar de canastrão (pelo modo com que suspende a sobrancelha enquanto mastiga – mas eu já entendi que essa variação de expressão faz parte de seu ser camaleônico). Pergunta-me objetivamente se meu sonho é do tipo experimental ou teórico. Não sei o que responder, mas aproveito a deixa para contar sumariamente o sonho, ressaltando o conteúdo solitário da torre (sempre com a cabeça inclinada, para examinar sua reação por entre as folhas). Ele vibra com o relato. Em seguida, talvez tocado pelo sonho, fica em silêncio. Até N. se cala. Meus olhos percorrem a sala, e ele me pede então que primeiro observe tudo, para depois conversamos. Levanto-me e reparo num quadro antigo que retrata um senhor lendo uma carta, cujo papel se descola literalmente da tela; pelo chão, espalham-se outros iguais, como se dali tivessem caído. Quando faço menção de me agachar para ver o que estaria escrito, o dono da casa nos convida a conhecer o quintal. Ao vê-los caminhando assim, a meia distância, sinto um alheamento latente, um desinteresse pelo meu caso – justo quando revivo o sonho à flor da pele. Mas reconsidero; prefiro pensar que seja a minha velha ansiedade e obsessão, porque não há nada urgente para ser resolvido. O quintal nos traz de volta o cortiço, com sinais por todo lado de um antigo incêndio – motivo que leva nosso mestre a contar várias histórias sobre esse lugar, que entusiasmam N. e a mim só aborrecem. Meu interesse nesse momento é descobrir de onde vem umas vozes estridentes que agora localizo, bem ali, atrás de uma meia porta, e aos poucos reconheço: novamente as adolescentes – mas não estou certo. Posso ver, por baixo das tábuas, um verdadeiro balé de quatro tornozelos molhados. Mais uma vez aqueles cochichos, murmúrios, e ainda mais excitados – já sabem que estão sendo observadas. Se queriam chamar a atenção, conseguiram, pois me sinto possuído pela graça das meninas, e, curioso, me aproximo, contornando a mureta que separa o quintal do corredor cheio de recintos. Um copioso fluxo d'água escorre dessa espécie de banheiro e alaga todo o corredor; preciso molhar os sapatos se quiser chegar ainda mais perto. E quero; a portinhola é tão cheia de frestas, que entrevejo seus vultos sensuais e frenéticos. De repente ficam mudas, tempo suficiente pra me fazer perplexo; no instante seguinte, as duas escancaram a porta e saltam pra fora, assustando-me até a medula com seus gritos histéricos e agudos. Enganei-me: não eram as mesmas, mas outra dupla igualmente escandalosa, que passam correndo por entre nós com um rebolado estereotipado, enroladas em toalhas de banho. Não posso deixar de achar graça. Atrás de mim, o quase oriental mulato se apoia nos braços de N. e comenta com frivolidade que a mais bonitinha era recatada, não dava nem chupava. Sorrio do modo como fala; esse seu jeito prosaico derrete o gelo místico e chato do nosso encontro até então. Acompanho o movimento das meninas até desaparecerem no extremo escuro do corredor, e, quando me volto, os dois caminham recostados e cambaleantes em direção ao que restou de uma sala ou quarto queimado pelo incêndio. Olham de esguelha pra mim, como se pedissem licença. O que me espanta não é tanto a relação dos dois em si, mas a maneira sinuosa e sutil com que foi enredada à minha frente, sem que eu percebesse. Posso esperar mais um pouco, ainda tenho tempo. Fico andando à toa, entediado, seguindo as marcas de fogo que pretejam as arcadas, colunas e paredes dos corredores que ladeiam o quintal, encontro uma passagem que me leva a vários ambientes depredados, vazios, escuros, que cheiram a mijo de gato. Ao fim, pelo vão do que seria uma janela, assisto a meu amigo gozando na bunda do homem. Eles veem que os vejo, mas não se acanham; de minha parte, satisfaço a curiosidade de saber quem ia por trás. Mas isso detona em mim, agora, intensamente, uma agonia, uma sensação de estar sendo enganado, de ter sido manipulado todo o tempo, não sei...
O homem está de volta ao quintal (meu parceiro sumiu), arrumando-se num roupão de banho. Interpelo-o para que esclareça de vez as intenções, com o que assente e se desculpa por qualquer negligência de sua parte, ao mesmo tempo em que ordena aos criados que limpem imediatamente a mesa do almoço. Retornamos à sala a passos largos. Ele coloca seus óculos de leitura na ponta do nariz, retira da estante dois enormes livros de histórias em quadrinhos, e pede para que eu abra um deles na página 84, enquanto procura qualquer coisa no outro. Folheio de trás pra frente, do começo ao fim, repito a operação várias vezes e não encontro tal página – simplesmente porque é a única que não existe. Não há mais tempo para ver livros ou ouvir desculpas ou terminar bem ou mal esta história; o último instante destina-se à evidência de estar eu mesmo enganado.
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Carimbo (18x32 cm) |