O Guardião do Fogo
Toda a tribo dizimada por lobos
estúpidos. De que serve vida? Custa nascer, custa criar, para no fim virar
comida de lobo. O que foi, meu fogo, o que aconteceu? Preciso pensar. A vida é uma
pedra parecida, os dias, a gente se acostuma, aí de repente caos. Quando os
deuses abandonam, eu sei. Não tem volta, ninguém corrige o dia. Meu vigia
dormiu, cansado de nada, não viu, não farejou, entraram, a alcatéia, de tocaia.
Era a hora mesma, ontem: o meio da noite. Besta! E aquela zoeira sem obediência.
Antes da aurora, eu mesmo acabei com os feridos. Não gosto de ui, de ai, de lamúrias.
Moribundo não serve pra nada. Gostava dela, isso sim. Se estivesse dormindo a
meu lado, estava viva. Apaziguaria meu corpo esta noite, ao menos esta. Os
lobos me levaram o sono. Chego a doer. Bosta! Mataram tudo que prestava, sobrou
a tralha. Três moleques, eu e a velha. Não conto as três crianças. Pra nem ver
o inverno acabar... De que adianta o fogo agora, se a Deusa está com os
lobos...? Adormeceu meu vigia... A canalhada veio de mansinho, pata pé pata,
pra morder de vez, o máximo, os melhores – só não se atreveram comigo. Se eu
lutasse, eles apagavam o fogo – não a brasa da fogueira, mas meu fogo, o fogo do
oco da pedra. Futuro nenhum. Disseram que vão voltar. Agora é fácil. E com a Deusa
do lado... Merda! Gosto de viver. Aprecio meu posto. Todos me respeitam, até
lobos. Viram? Vieram de vingança, que se fosse por fome catariam os primeiros, os
três: o vigia e a mulher com filho que dormiam lá fora. Estaria bem, seria bom.
Vingança por ter pintado praga na parede contra eles. Eu avisei. Mandei apagar.
Apagaram, era tarde; Deusa já tinha voado avisar. Nunca vi tantos. Reuniram
todos. A planície inteira. Foda! Somente a velha. Onde vou meter? Se não forem
os lobos, quaisquer uns aí virão, quando souberem da desgraça, acabar com resto
da gente. E já foram avisar, os ventos... Homens piores que lobos, que matam
por matar. Matar precisa de razão, todo mundo gosta de viver, beber água,
trepar. Bichos matam pra comer, homem mata pra matar ou morrer. Lobo veio por
vingança, dessa vez. Também, os meus queriam acabar com eles todos. Burros!
Como se pudessem enfrentar a natureza. Lobo não se elimina, tem deus pra tudo.
Agora, qualquer leão caduco acaba com a gente – qualquer leopardinho. Os três moleques
precisam de força, crescer, o que vão comer? Só sabem caçar ratos, catar coco,
e eu não caço, nem na miséria eu caço, tenho mais o que fazer. Viver. Eu gosto
de viver. Saio pouco, aprecio o nascer do sol. Com a pedra da brasa na
mão. Meto muito, vários filhos eram
meus, os outros metem e quase não fecundam, eu, e a mulher embucha! Eles me
respeitavam. Gravidar a velha, arre! Cátiço! E a velha é nojenta. Nunca fui com
a cara. Com ela tive aquele mongol. Dei pros lobos. Depois, não quis mais. Bons
tempos, oferecia-se criança ou velho de vez em quando, e os lobos deixavam a
gente em paz. Mas veio a modernidade, e chega de sacrifícios, é guerra, a tribo
garante – deu nisso. Essa rapaziada não conhece o tempo, pra eles nada existiu,
nada existirá. A graça é que acertaram, nada haverá, mesmo, ao menos pra eles:
viraram carne. Pensam que fogo só acende fogueira e que deuses só existem pra nós.
Cansei de falar. Ouviam-me com atenção, mas não entendiam. Brincaram, zombaram.
Fazer aquela pixação... Pensavam que o mundo é a planície... Eu tive avô. Ele
me deu o fogo. Tanto trabalho... Quem vai saber o que eu sei? O que sei morre, e
meu fogo morre junto? Não sei. Meter em quem? Na velha – prefiro cu dos
meninos. A velha comeu a carne da bunda da filha! Hoje ainda. Disse que estava
com fome. Quando os lobos voltarem, entrego a velha. Duro mais uns dias. Gosto
de viver. O dia é bonito. A noite é muito longa. Já pedi pra Deusa acabar com a
noite. Pra quê? Respondeu que os lobos e leões lhe pediram pra acabar com o
dia. Então acho que faz a média. Sair, ir embora, voltar a vagar como os
antigos – a gente não resiste mais. O primeiro bicho, e mais um já era. Perdi
meus guerreiros, perdi meus filhos, perdi minha tribo, invenção antiga do meu
avô. Pau que ele tinha – igual ao meu. Não ligo de virar carne de abutre,
porém, e o que sei? E o que meu avô sabia, pra onde vai? O fogo vai apagar. E
eu ainda não entendi morrer. Perguntei pra Deusa o que é, me disse morra pra
ver. Mas eu gosto de viver. Comer cordeirinho assado. Tinha um filho hábil pra
caçar cordeiro. Trazia pra mim o primeiro pedaço. O primeiro, não, o depois da
oferta. Gostava de escolher uma fêmea quando eu enchia a barriga, fornicar e
dormir olhando meu fogo. No meu nicho. Trabalhar, não, nunca; caçar é
humilhante pra minha classe. Eu penso. Eu sei. Eu rezo. Eu explico. Esse é o
meu trabalho. Sei tudo, menos de morrer. O que aconteceu e o que acontecerá. O
fogo diz tudo, quase tudo. Às vezes eu erro, digo que será esta noite (acho que
eles estão voltando) e é depois, dias depois, dois ou três. Erro por pouco. Vejo:
o que eu não sei não morre, porque não está em mim. Não tem problema. Mas, e o
que sei? De que adianta saber que se parar de cheirar o vazio a gente se afoga,
como dentro d’água? Explicar tudo pra uma das crianças, pra quê? Não sobrará
ninguém. Sei quando a chuva vem, se dilata o inverno, pro que serve cada ser,
pra aquilo que ele nasceu, se presta ou não. As plantas. Tem estúpido que come
qualquer coisa que encontra e morre da barriga. Meus filhos me traziam a folha,
o fruto: esse pode, esse não. Sei o segredo de fazer filhos. E curar. Curar o
curável, é claro – rezar certo. E conheço os deuses, cada um, seus poderes,
seus castigos – mas só amo a Deusa. Agora não, escolheu os lobos. E também ela não
serve pra nada mais, estou no fim. Antes, não, não é bom brigar com deuses.
Fazer a coisa fora da hora e do jeito. Por isso nunca matei a velha. Deusa me
disse para não matar. Obedeço. Obedecia. Morrer apaga os olhos, isso eu sei.
Então como ela quer que eu veja a morte? Morrer é dormir – mas em que corpo? O
corpo apodrece, fede e derrete. Mas quando penso eu não tenho corpo. Onde está
meu pensamento? Eu conheço o futuro. Mas só sei o futuro da vida, vivo, não sei
o futuro da morte. Não gosto de morrer. Uma vez eu dormia com uma que já tinha
morrido, na sombra escura eu não percebia. Falava com ela, não respondia.
Diacho. Dia seguinte, que vi, não sei nem se tinha metido nela morta ou viva.
Arre! Acordei abraçado com defunto. Orra, de repente a mulher não está ali no
corpo dela, não obedece. Bem, ela não pensava, eu penso. Eu não morro. Senão o
fogo apaga. Só se a morte levar o fogo. Bobagem. Mas se a carne vira osso, por
que o pensamento não vira fogo? Bobagem. Um filho bom que eu tinha sabia pensar,
eu sei, porque ele me contava. Poderia ter ensinado tudo pra ele. Virou o quê?
Meu fogo que não, que não aumentou. Viro deus? Isso é o que pode ser. Pra meter
na Deusa. Não entendo, entendo tudo, isso não entendo. E não quero morrer sem entender.
Quando eu canto, minha voz vai pra onde? Porque ela se apaga no ar. Voa até ali
adiante e some. Pedi pra uma mocinha sentada cantar sem parar e fui andando,
andando, a voz dela foi sumindo, sumindo, pra onde? Morreu? Mas fui voltando, a
voz baixinho, aumentando, até reaparecer igual. Então ela some, então ela volta.
Fogo! Ninguém entende. Andei pra longe da fogueira. É a mesma coisa; a luz foi
diminuindo até desaparecer na escuridão. Você vai longe, vê a fogueira
pequenina, mas ela não ilumina. Quando volta, ela continua iluminando. Pensava
que fosse por respeito a mim. Não; acontece com qualquer um, eu vi. Pra onde foi a luz? Some no vazio. O cheiro é
igual. De longe não se sente. O vazio chupa tudo. Tudo vira azul. O som, o
cheiro, a luz: azuis. E o pensamento, e eu? Azul. Não sei. Não consigo dormir.
Tenho pouco tempo pra entender. Eles estão vindo, hoje ou amanhã. Eu sei. Os
rapazes têm medo de ficar na vigia. Pus a velha. Pelo menos serve pra isso.
Berrará, antes. Porque os lobos vêm vestidos de noite. Não dá pra ver sem lua.
Quando eles derem o bote na velha, a gente acorda. Pra quê? Só pra acabar com alguns
antes de morrer. É bom. Eu não, não perco tempo, nenhum eu mato, não sou de
guerra, meu posto é outro. Observarei parado, do alto de minha pedra. Eles me
respeitam, deixarão pro fim. Se eu quisesse, matava meia dúzia ou mais, de que
adianta? Mata um vem dez, mata dez vem cem. A história está escrita, é fim. A
tribo do meu avô. Antes dele, ele me contou, a tribo era pequena e vagava.
Igual a muitas por aí – tudo comida ambulante de bicho. Ele encontrou esse
buraco de pedra, com água abundante na frente e disse: ninguém viaja mais. Sábio:
a tribo cresceu. Sempre que tinha visita de homens, a gente deixava entrar, na
surdina, cercava e descia o pau. Resguardava as moças e crianças. Feneceram aqui
dentro várias tribos que sequer sabiam falar. Não dava pra entender o que rosnavam.
Mas mulher é bom no mundo todo – e sobrevinha a temporada de farra. Umas anunciavam
uns costumes... Uns bons tempos. Meu avô me explicou que o mundo é distante e
tem tipos diversos de gentes e bichos. Me contou o que é mãe. Disse que eu tinha
tido uma. O velho sabia tudo, ia me ensinando devagarinho: que o filho sai do
pinto do homem na fornicação. Que eu observasse que menina só ganha barriga
depois que uns enfiam. Isso era segredo antigo; o filho sai na horinha do
choque. Penso muito nisso; o que sai do pinto é a gosma doce, filho nenhum. Que
sai pequenininho eu sei, porque depois cresce na barriga, nove ou dez luas. Mas
não vejo nenhum menininho. Só se fosse antes, na horinha do choque, não na
gosma mesma. No choque... parece que sai uma coisa forte de dentro, que depois sobrasse
a gosma... Tem muita coisa na vida que a gente não vê como acaba nem começa.
Exemplo, como o primeiro homem que nasceu, exemplo, como o fim do mundo depois
do deserto. Eu não entendo por que não vejo o corpo de Deusa. O sol eu vejo, a
lua, o raio, a chuva, a terra e o céu. Deusa fala comigo no pensamento ou quando
eu durmo. Às vezes já vi, voando cabeluda com um bundão enorme. Meu avô dizia
que ela tem rabo, mas não reparei. Não gosto do que não se vê, por isso não
gosto da noite escura, como esta. Tudo escondido. Pensava que as coisas também
sumiam no vazio, até a aurora. Invocado, saí com a brasa mínima para não
clarear, na escuridão, queria descobrir o esconderijo. Os galhos viram galhas
pra assustar, as árvores ficam gentes, tão pretas que iluminam sua volta. Vi
que continua árvore, fui lá tocar, era, e as pedras também eram, e nada tinha
desaparecido; eu tinha deixado antes um pau de propósito ali, e o pau
continuava lá. Então esconderijo nenhum, somente um brilho de carvão nas coisas,
no vazio. Só lobo cego pra preferir o avesso. Mas isso é modo de dizer, não tem
carvão nenhum, não entendo; se o Sol dorme e não ilumina, a verdadeira coisa real
some? Fogo meu. Tenho pouco tempo, por isso de tudo vou pensando hoje. Morrer
sabendo seria alguma coisa. É o caso da sombra. Sou eu? Me mexo, ela também.
Está grudada. Mas se dou uma cacetada na cabeça dela que é a minha, não sinto
nada. Sombra é uma parte da gente que não se pega. Como o vento. Mas vento é
vento e a sombra é uma coisa da coisa. Sol faz a sombra, reparei, o fogo
também. Caralho, que o problema é o mesmo: pra onde vai a sombra no escuro? Vou
morrer jovem... Então uma parte minha some no escuro. Morre um pouco? E quando
eu durmo, morro um pouquinho? Muitas vezes eu viajo dormindo. Visito lugares
que já fui ou não fui. Vôo, sei voar. Sei correr sem pôr os pés no chão. Mas
sempre esqueço o fogo. Às vezes, roubaram meu fogo. Acordo suado, aflito, a
boca colada de sede. E se eu não voltasse, se continuasse viajando, até o fim,
depois dos mil invernos? É a morte. É isso. Mas quando eu durmo eu levo meu
corpo, morto nenhum leva o seu. Chega! Não dá pra entender. Como se a sombra saísse,
deixasse o corpo apodrecendo e viajasse por uma noite que nunca amanhece... Mas
tem o dia, não adianta imaginar que não. Tudo sumir, apagar de vez, acabar a
boa vida, será? e o meu pensamento, este mesmo que estou fazendo? Chega! Não
consigo dormir. Meu pau está duro e não tem ninguém. Se eles não vierem hoje, de
dia é que não. Quando me pegarem, rasgar tudo, quero estar bem vivo pra ver.
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Parafina |