As Três Latinhas
Eu era casado com alguém que não recordo, sei que a Didi era
bebê. Levava cinco cruzeiros para compra do lanche do jantar. Quase em frente
ao falido mercado Cooperativa de Cotia, no Largo das Batatas, estanquei-me pela
enésima vez para assistir à antiga arte de roubar dinheiro dos pobres, o jogo
das três latinhas. O prestidigitador embaralha três latinhas sobre uma mesa
improvisada de caixotes, forrada por uma folha de jornal, mantendo uma bolinha
de feltro na ponta do indicador e o médio; de repente a esconde e aposta com os
transeuntes onde está. Canta um estranho mantra hipnótico, que é interrompido
no momento em que lança o valor da aposta. Paga o dobro, e de quando em quando
propõem rodadas de fogo. Sempre tive pena ver aquele povo perdendo todo o
dinheiro com pegadinhas banais (eles apareciam especialmente em dias de
pagamento). Digo banal porque, para aumentar a confiança do apostador, o crupiê
chegava ao cinismo de levantar a latinha com o bolinha; enquanto o coitado
distraia-se um segundo tirando o dinheiro do bolso, ele simplesmente trocava a
posição de uma das duas latinhas vazias, de modo que a bolinha que ocupava a
latinha do centro, por exemplo, passava para a esquerda ou direita. Este mero
reposicionamento era o suficiente para o opostador, com toda a segurança,
levantar a latinha central e se
espantar pela bolinha ter desaparecido. Um dos muitos truques tolos. Era
frequente o inclusive o consentimento de que se pusesse o dedo sobre a latinha
para evitar qualquer alteração, ou mesmo, quem desejasse, que conferisse se a
bolinha marota continuava no lugar -
sempre que sentia que a pequena aglomeração em torno havia se inibido de
apostar. Acontecia também de o cara deixar de fato que vários ganhassem, pois
sabia que o dinheiro retornaria nas rodadas subsequentes. Outro recurso era
fazer um cúmplice ganhar muita grana – servia de chamariz. O bando era formado
por esse cúmplice vencedor e por
outros dois a meia-distância, em pontos estratégicos, que assobiavam com a
aproximação da polícia e serviam de segurança contra apostadores desesperados
que perdessem o controle. A tentação de me arriscar crescia a cada dia dentro
de mim. Ia embora com o coração batendo.
Sentia que não era bem vindo na roda, um tipo como eu,
branco, estudado, com cara de esperto. Não seria páreo pra mim aqueles truques
dirigidos para quem nunca armou um puzzle,
nunca procurou o Wolly, nunca resolveu problemas de palitos do Tesouro da
Juventude, nem sabe o que é tan-gran, nem onde fica o Japão e, muito menos,
fosse da faculdade de Física. Naquele dia, cinco cruzeiros era muito pouco. Com
cinco faria dez - e teria sabedoria de parar por aí. Poderia levar umas
surpresinhas para a casa. Quem sabe não fizesse disso um costume, um milagre da
multiplicação das notas (ainda não sabia que o milagre, que de fato existe,
exige inocência); todos os dias trocar cinco por dez e jantar melhor com minha
família. Quanto valeria aqueles cinco da época? Imagino 200g de presunto, 200g
de queijo, pãezinhos, leite, um pacote de macarrão, meio quilo de carne moída,
talvez ainda um sabão em pó pra mulher e uma papinha pra a filha. Achava pouco.
Dobrar significava, para além disso, duas garrafas de cerveja, um bom tablete
de chocolate, uma lata de goiabada, queijo branco ou, no lugar destes dois
últimos, um pedaço de provolone. Meu coração batia como nunca. Estudava rodada
por rodada e, em todas elas, ganharia facilmente. Precisava vencer o medo;
amassei o dinheiro na palma da mão para não desviar o olho, não era bobo. Me
preparei para o bote. O plano era pôr o dedo sobre a latinha como garantia,
pagar a aposta pedida (o mínimo era os tais cinco) receber a grana e sair de
fininha (ninguém era obrigado a continuar no jogo, eu é que tinha pudor). Minha
excitação fazia o lusco-fusco do fim de tarde parecer mais lusco e fusco que
nunca ou a bolinha suja se camuflava na folha cinza do jornal... Besteira.
Vinha do tremor e da zoeira. Contudo, assim não seria certo arriscar, resolvi
ir embora, voltar mais tarde, refeito. No exato instante que partiria, um
cúmplice que não parecia cúmplice à minha frente pôs o dedo na latinha e
conclamou todos os presentes; era uma rodada de fogo e a banca apostava
cinquenta! Isso significava juntar de cinco a dez de cada um, e no final
repartir o lucro. Ele quase berrava, e encanou especialmente comigo, põe, põe, olha aqui (levantava a
latinha), está aqui, é só casar, porra,
vamos lá, ele mesmo já dera vinte, outro ali, outro acolá, tive tempo só de
reparam no banqueiro impassível e meu cinco amassado e suado saiu da minha mão
sem que eu percebesse. E depois, olhar o cúmplice abrir a latinha vazia e
fingir uma cara de oh!
Voltar pra casa sem nada, encontrar uma desculpa para a
mulher e sobretudo controlar a química descontrolada do meu corpo, o sufoco...
Um mês depois, atravessava o viaduto do Chá e me deparei com outro jogador.
Este era o diabo em agilidade. Cantava o mesmo mantra enquanto embaralhava as
latinhas, de repente a bicha sumia dentro de uma delas, e raramente eu sacava o
destino. Cheguei a achar que ele a escondia na mão, mas o povo, depois de
perder, conferia e ela estava lá, na latinha mais improvável. Enfim: a banca
estava rodeada de tipos refinados, advogados, estudantes, comerciantes e tal.
Então entendi o que havia acontecido comigo: os malandros dançavam conforme a
música. Ele não era melhor que o meu do Largo da Batatas: unicamente jogavam de
acordo com a natureza dos estúpidos que apostavam. Ali, ante os refinados,
mostravam toda a habilidade; lá, no meu bairro, jogavam pro gasto com gente
batata.
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